Viagens em ciclo
Os domingos já não têm o mesmo sabor, a mesma textura, o gosto em vivê-los não é o mesmo, transfiguraram-se, os verdes anos ficaram para trás, apenas as minha células de memória, em rasgos que me assomam, me revelam as telas desses domigos despreocupados, suaves, onde os lençóis quentes da manhã e os passeios da tarde me acomodavam, me completavam o ciclo biológico ou seja o que for que me regula e que cria a rotina essencial ao meu bem-estar.
Esses domingos (deverei continuar a chamá-los assim?) desvaneceram-se, agora são dias ocupados a fazer malas, a arrumar livros, a comprar bilhetes, em esquecimentos de última hora, em nostalgias que se entranham neste corpo albino. Daqui a escassas horas lá estarei com a cabeça encostada ao vidro da janela do autocarro, o ciclo de respirações incertas a embaciá-lo ( será que algum dia me habituarei a isto?) e a solidão que eu tanto estimo a atraiçoar-me, o silêncio outrora benevolente a incomodar-me, olho a mesma paisagem de sempre à medida que o autocarro voa para o seu destino e eu mexendo os lábios, falando baixinho só para eu ouvir:
- Para a semana voltarei.
F.S.









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