conversas blogosféricas
a propósito do simpático comentário da alice a este artigo (eu gosto de conversas blogosféricas):
é bem verdade que antes as coisas tinham um outro encanto. sem telemóvel ou internet (mesmo nos tempos do mirc), as relações tinham forçosamente de assentar numa base de confiança muito mais sólida. não havia mensagens a cada minuto a perguntar com quem se está, onde se está, a fazer o quê. note-se que não sou, de modo algum, saudosista ou retrógado, e não quero voltar à idade da pedra lascada; apenas creio que nos deixámos levar, e que a febre do "estar sempre contactável" constitui hoje uma "violação consentida" da nossa esfera particular - que, para quem não saiba, continua a existir apesar das relações amorosas. um casalinho que hoje tenha 15 anos jamais irá sentir a alegria de receber uma carta (sim, uma carta) daquela pessoa especial. entrámos na era do instant messaging, dos comentários no hi5, dos e-cards a dizer "amt mt***". hoje já não existe confiança no amor, essa coisa antiquada. agora, começam-se relações pelo messenger, rebentam discussões e choros danados em discussões que têm por base às perguntas iradas "porque não me respondeste à mensagem? porque não me deste um toque?". sinais dos tempos? sem dúvida. não pretendo aqui armar-me em moralista, até porque me reconheço nestes comportamentos - há coisas inevitáveis. mas que alguma coisa se perdeu neste caminho, disso não há dúvida.
momento autobiográfico: naquele tempo, eu não tinha telemóvel nem computador. a minha namorada tinha telemóvel, e também não tinha computador. morávamos longe um do outro, éramos da mesma turma. pouco tempo para namorar, e aguentámo-nos bastante tempo com todas essas contrariedades. foi uma boa época. as coisas eram diferentes. lembro-me de, esporadicamente, quando a casa já toda dormia, roubar o telemóvel ao meu pai para mandar uma mensagem lamechas à qual sabia que ela não podia responder (era o telemóvel do meu pai, afinal de contas). lembro-me de, uma vez findas as aulas à sexta, nos despedirmos na rodiviária de odemira a combinar falar, por telefone no domingo às três da tarde. "ligas tu agora", dizia-lhe, "que no fim de semana passado fui eu". "está bem", respondia ela. "amo-te". e durante dois anos contribuímos activamente para o enriquecimento da portugal telecom. meia hora, uma hora ao domingo, para contarmos um ao outro as aventuras de sábado, para planearmos a semana, para falarmos mal de um professor ou de alguém que conhecêssemos, para as lamechices de namorados. depois os meus pais ofereceram-me um telemóvel, e começámos a falar mais. a trocar mais mensagens. durámos poucos meses a partir daí. bem sei que foi por acaso. mas ainda hoje recordo os nossos primeiros tempos de namoro, e pergunto-me se hoje conseguiria manter uma relação assim.
quanto a eu ser uma boa pessoa, alice.... tenho dias, creio.
jc









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