3.4.08

governar para as estatísticas

in público: o ministro da ciência e ensino superior está convencido de que quase não há licenciados desempregados em portugal.

reconheço que é muito provável que o ministro tenha razão. não conheço, de facto, muitos licenciados no desemprego. no entanto,

não especificou se o trabalho que encontram em qualificado ou se tem relação com a área em que tiveram formação superior.

aqui é que reside a verdadeira questão. um licenciado é alguém que tem formação superior (universitária) numa determinada área através de um determinado curso. para obter esse grau académico, investiu pelo menos três anos da sua vida (e, diga-se de passagem, muito dinheiro, mesmo numa universidade pública) a estudar para conseguir uma determinada profissão. é perfeitamente natural que um licenciado não esteja desempregado - tem de ganhar a vida de qualquer maneira. mas desçamos nós à terra, já que o ministro parece não ter vontade de o fazer. quantos licenciados não estão a trabalhar

a) em caixas de supermercados;
b) em cafés/restaurantes/bares/casas de alterne;
c)call centers (de seguradoras, de operadoras de telecomunicações, de isp, etc)
d) ou a estagiar em situação precária e extraordinariamente mal remunerada
e) outras áreas que em nada estejam relacionadas com a sua área de estudos.

estes são os dados que importam. a afirmação do ministro é pura - e rasteira - demagogia. porque os licenciados trabalham, claro que trabalham. mas não estão a obter qualquer retorno do investimento que fizeram numa formação académica. não pretendo menorizar qualquer uma das profissões citadas - eu próprio já trabalhei num restaurante e num bar, e gostei de o fazer. mas são profissões que não exigem uma formação universitária - quanto muito, poderão exigir uma formação profissional ou técnica. ora, é preciso o ministro ter muita lata para vir dizer que

“o número de profissionais que sai dos cursos superiores todos os anos para o mercado de trabalho não chega e são todos absorvidos pelo mercado”.

foda-se. são absorvidos e exploradinhos pelo mercado. mas temos professores qualificados a atender telefones para a tmn, por exemplo.


se dúvidas havia, com estas declarações ficamos com uma certeza: em portugal governamos para as estatísticas europeias.

note-se que não defendo que o estado deve empregar a canalha toda. nada disso. deve é criar condições - e não ser um obstáculo - a uma evolução económica que permita corrigir este problema. porque é muito bonito termos uma percentagem de licenciados acima das médias escandinavas, mas é igualmente inútil as potencialidades dessa população qualificada não forem aproveitadas.

jc

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