Moleskine #3
Dorme, Clara; deixa-me entrar nos teus sonhos, enxotar esses fantasmas que te desassossegam, varrer esses homens que não são dignos de beijar a fímbria do lençol onde os teus pés espreitam. O teu cabelo desmanchado sobre a almofada, subindo, de sonho em sonho, um feixe de raios de sol espreguiçando-se nas árvores da madrugada. A curva do pescoço, a curva do seio descoberto, a curva do joelho que destapas, quero que o lume dos meus olhos derreta a porta do teu coração, quero que os meus olhos acendam os teus, dou-te os meus olhos, e dentro deles o rio da minha sede, um rio curvo, cheio, como o teu corpo, cegaria para todo o sempre por ti, Clara, para ficar às escuras dentro de ti.
(in A eternidade e o desejo, Inês Pedrosa, 2007)
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(in A eternidade e o desejo, Inês Pedrosa, 2007)
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