26.8.08

Républica Portuguesinha (parte 1)


A grande dificuldade que os portugueses têm é a de saber até que ponto o país é um colectivo ou um território limitado ao corpo de cada um dos dez milhões que o habitam. Se por um lado nos achamos capazes de erguer de novo a dimensão dos descobrimentos a cada Jogos Olímpicos (europeu de futebol ou outra coisa qualquer dessa estirpe), por outro autoflagelamo-nos repetidamente; mais do que isso, demonstramos uma volúpia desesperada pela auto-ridicularização como que uma sede diária por forçar o humor sobre o ser-português ou o-que-é-Portugal. Semelhante à bica diária, é um espectáculo de auto-consciência do ridículo diário. E em doses invariavelmente exageradas. Noutros países é quase sempre claro que é o conjunto/colectivo que materializa o conceito de pátria, ao invés em Portugal cada indivíduo assume-se como o país inteiro, fazendo com que flutuem dez milhões de paizinhos minúsculos que se ligam com cuspo uns aos outros quando joga a selecção nacional de futebol. Limitar-me-ei a dar um exemplo: não é raro (tudo menos raro) que o português assuma a honestidade como propriedade dele próprio, que não autoriza (nem sequer quando é evidente) que seja partilhada por qualquer um dos outros dez milhões; nesta patologia inserem-se certos jornais diários que cada vez mais arrastam os melhorzinhos para o ecoponto. Este monopólio de honestidade serve para justificar o insucesso do país, comportamento evidente nas declarações montyphytianas dos atletas olímpicos. Acho aquela "não sou muito dada a este tipo de competições" absolutamente genial.

jtf

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