Milagre termodinâmico.
Rabisquei aqui sobre o suicídio. Não ando com ideias, descansem - escrever sobre o suicídio já causou um certo pânico uma vez. É simplesmente um tema a que volto recorrentemente. Há em mim uma certa atracção pelo abismo. Mas agora falarei sobre a vida - essa sacana que tanto nos ilude. Ocorreu-me isto hoje, enquanto era metodicamente esborrachado contra a porta do metro entre o Marquês de Pombal e os Restauradores (é prova do atraso português o facto de, em plena hora de ponta, o metro circular apenas de cinco em cinco minutos). A dada altura em Watchmen, Laurie faz o impassível Jon compreender quão extraordinária e única é a vida humana - um milagre termodinâmico, como Jon lhe chama, fruto de uma espiral infinita de acasos que originam algo único. Não sei porquê, mas o início da minha vida académica - nomeadamente, a minha semana de praxes - assaltou hoje a minha memória e fez-me pensar nisso, e no que foi a minha vida desde esses curiosos dias de outubro ano da graça de dois mil e três. Na altura, recordo-me (há provas em vídeo, para meu mal, mas não no youtube, porque naquele tempo já existia DVD, mas a VHS ainda tinha força - Deus é grande), tinha uma escola inteira de desconhecidos a pedirem-me para fazer macacadas. Pedido ao qual, não sei porque carga de água, acedi de forma invulgarmente espontânea em mim (e tão espontaneamente como me soltei naqueles dias, retraí-me pouco tempo depois). Tivesse a minha atitude sido outra, e o que teria mudado? Provavelmente a A. seria minha amiga à mesma, e talvez agora estivesse tão chateada comigo como parece estar. Assim como a C. Talvez a L. tivesse sido minha namorada na mesma. Mas nunca a N., uma vez que dificilmente teria integrado a comissão de praxes dois anos depois, e a minha ex não seria hoje coisa rigorosamente nenhuma, nem uma memória. Da mesma forma, é provável que L. não fosse hoje a minha melhor amiga, como é provável que eu jamais tivesse descoberto que eu e a V. temos uma extraordinária sintonia no que respeita a livros. A A. passar-me-ia completamente ao lado, e consequentemente, nunca teria tido as excelentes conversas que tive (e tenho) com a R.. O P. seria um ilustre desconhecido, assim como o T. e o M.. É extraordinário como algo tão simples e idiota - a chinfrineira desgraçada que armei durante uma semana, até ficar afónico - foi determinante para eu me aproximar de 90% das pessoas que, para o bem ou para o mal (mas sobretudo para o bem, mesmo algumas daquelas que me feriram), foram imprescindíveis na minha vida ao longo dos últimos cinco anos - e decerto continuarão a sê-lo. Não me ocorre um termo melhor para definir esta teia insana que é a vida. Milagre termodinâmico parece-me tão adequado como qualquer outro.
Mais complexo ainda é pensar como teriam sido os mesmos cinco anos se, na altura, tivesse feito a escolha certa e tivesse ido estudar Psicologia em vez de Jornalismo. Meninas (vocês sabem quem são, se lerem isto), escusam de mo repetir: eu sei que ainda vou a tempo.
[se todas as pessoas que mencionei no texto lessem este texto, conseguiriam identificar-se - e identificar outras também. peço desculpa se aborreço alguém com a menção, mas não me parece que quem não saiba vá saber de quem estou a falar.]
john (fartei-me do JC)









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