28.2.09

00, uma década falhada na música?

Retirado do Blitz:

O que há de novo?  

Muitos defendem que esta década foi um grande zero em termos musicais. Nenhum grande género teve a sua génese nos anos 00, alguns apontam o reggaton
[o quê?] mas a discussao está acesa. Qual a causa? O que aconteceu nestes últimos anos?

Mp3, Change we can belive in 

A tecnologia é apontada um pouco por toda a net como a grande responsável pela mudança no panorama musical. As editoras e as rádios perderam o monopólio da distribuição. O fenómeno Ipod matou o ábum tradicional, e a partilha livre de musica que presiste desde os seus primórdios no Napster permite a todo o utilizador mais ou menos informado da internet ter a biblioteca musical com que sempre sonhou. As bandas podem com facilidade (orçamento reduzido) gravar e dar a conhecer os seus trabalhos através da rede. A música foi no principio da década a nova mercadoria favorita da rede, depois da pornografia reinar nos anos 90, teve de aprender a partilhar o pódio com a música, e posteriormente com a largura de banda a aumentar, com o vídeo (Youtube).  

Conclusões 

Parece ser opinião geral que a década foi pobre. Partilho dessa opinião, a maior parte dos artistas que admiro são dos anos 80 e 90. Poucos surgiram depois de 2000. É fácil partilhar a música, mas é dificil vende-la, porque é mais fácil que nunca piratear e partilha-la. Tão fácil que há muitos dispostos a dr-se ao trabalho à borla. As novas bandas passam momentos difíceis. As rádios e as editoras têm menos importância, e defendem-se voltando-se para o mainstream, estando agora piores que nunca. 

[Disclaimer] O tema é vasto, isto é um recurso para pesquisar e comentar, não um veredicto nem um verdadeiro artigo sobre o tema. 

Okay, vamos por partes. À partida, inclinar-me-ia para concordar com esta posição. Apesar de ter descoberto uma ou duas coisas muito boas nos últimos anos e dos últimos anos, também diria que esta década não tem conhecido muitas novidades. A tese falha, porém, ao considerar que a falta de novas tendências se traduz num período musicalmente fraco - o que está longe de ser verdade. Por um lado, assistimos à consolidação de bandas que na década de noventa seriam apenas promessas (Muse), e que hoje são fenómenos mundiais. Por outro, vimos emergir um certo movimento revivalista, que colocou toda a gente a ouvir Joy Division e The Smiths, que fez os Magazine e os Sex Pistols reunirem-se novamente, e que abriu os olhos de várias gerações à música da geração dos seus pais. É formidável ver miúdos de dezassete anos a curtir Buzzcocks, a sério que é. Não serão certamente uma novidade no sentido histórico do termo. Mas, e a título pessoal, Ian Curtis, Morrisey e Devoto foram novidades, e novidades mais valiosas do que 80% da música que ouvi em toda a minha vida.

A edição: é evidente que hoje, com orçamentos reduzidos, as bandas podem gravar os seus álbuns - e, mais importante, podem distribuí-los à escala mundial (hello, Radiohead). E isto só pode ser bom, na medida em que permite, por um lado, a que mais gente possa aceder a (boa) música e, por outro, a que novas bandas possam surgir, sem estarem sufocadas pelos espartilhos das editoras. A rádio tem-se sabido adaptar aos novos tempos, com podcasts, emissões online e com uma complementaridade de suportes que me parece muito interessante (diria mesmo que a Internet poderá estar a reinventar a rádio). A indústria discográfica, nem por isso. Devia ter percebido no início da década, com a reacção de bandas como os Offspring ou os Smashing Pumpkins à cruzada dos Metallica, que estava a lutar uma batalha perdida. Hoje, esforçam-se por manter um modelo que está mais do que ultrapassado - a menos, claro, que consigam impedir toda a gente que já fez um download ilegal de música de voltar a aceder a um computador. Veja-se a indústria cinematográfica: com o DVD, que prometia aniquilar o cinema convencional, surgiram os extras, as edições especiais para coleccionadores, e toda uma série de produtos que fazem um filme render ainda mais dinheiro. Compramos um CD, e o que temos? Cerca e doze músicas, a capa e - se tivermos sorte - as letras das músicas. E pagamos praticamente o mesmo que pagamos por um DVD. Veja-se a Apple, um verdadeiro case study: quando percebeu para onde corria a maré da música digital, foi dando forma a todas as componentes de um negócio formidável. Hoje tem uma loja de música digital fabulosa - a iTunes - e o iPod, que, goste-se ou não (não sou apreciador, confesso), é o leitor de música digital mais bem sucedido do mundo. Ou seja, a Apple, uma empresa de tecnologia, conseguiu fazer no mercado da música o que as próprias empresas do mercado da música pelos vistos não conseguem: ter lucros.

Posto isto, a minha conclusão só pode ser uma: se é verdade que a corrente década não trouxe muitas novidades na música, não menos verdade é que nesta década a música como a conhecemos mudou radicalmente. Mudou a forma como a adquirimos e como a ouvimos. Mudou a forma de ser criada e distribuída. E isso não tem preço. 

E, claro, tenho de mencionar isto: a década de 00 (isto soa tão mal) deu-nos Amnesiac e Hail to the Thief. Não chega?

john

[Só mais uma coisa: não creio que a música algum dia venha a ser mais importante na Internet do que a pornografia. E esta é uma indústria que, talvez mais do que qualquer outra, mostrou (e mostra) como é possível retirar grande valor da rede.]

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