16.3.09

Crónica de viagem: Santa Apolónia - Vila Nova da Barquinha (e regresso)

Não parece grande viagem quando o bilhete de comboio, com desconto do Cartão Jovem, fica em pouco mais de cinco euros. O objectivo da visita a Vila Nova da Barquinha era visitar o Castelo de Almourol, recolher algumas informações sobre sável - talvez entrevistar um pescador - e regressar de comboio. Só isto. Coisa simples: comboio, almoço, conversa, visita ao castelo, regresso de comboio.

E como todos os planos infalíveis, também este revelou ter imensas falhas.

Partimos de Santa Apolónia, viagem tranquila até ao Entrocamento. Segundo pequeno-almoço no bar da estação, comboio para Vila Nova da Barquinha (quatro minutos). Debaixo de um sol de final de Primavera em pleno Inverno, percorremos as ruas da vila, até ao fantástico parque na zona ribeirinha do Tejo. Escolhemos um restaurante, provámos o famoso sável frito com açorda de ovas - petisco dos deuses - e, quando fomos pagar, o multibanco do restaurante recusou-se a funcionar.

Uma coisa tão ordinária como uma máquina de pagamentos sem comunicação normalmente não mereceria destaque, bem sei, mas toda a história que se segue depende deste momento. O multibanco não funcionou: juntámos os trocos e percebemos que, entre os dois, tínhamos dinheiro à conta para pagar a refeição. Certo. E para Almourol, como se ia? Seguindo pela estrada, disse-nos o dono do restaurante. Nada que enganar: segue-se a estrada à saída do restaurante, e dois quilómetros depois há uma povoação chamada Tancos, onde está o barco que leva os turistas para a ilha do castelo. Dois quilómetros de caminhada pareceram uma boa ideia para digerir o (pesado) almoço. Fizemo-nos à estrada.

Acontece que os quilómetros não eram dois, mas três. Possivelmente mais. Debaixo de um sol curiosamente quente. Mas como não sabíamos a distância exacta, fizemos o percurso sem pausas, na beira de uma estrada com um trânsito considerável para a região. Chegámos por fim a Tancos, cheios de sede - e só nesse momento nos lembrámos de que era necessário levantar dinheiro. Coisa simples, para isso apenas necessitávamos de encontrar a ATM da aldeia.

Coisa simples tornada complicada quando a dona do restaurante da aldeia nos diz "Multibanco aqui, só em Vila Nova da Barquinha, vai-se ali pela estrada, são três quilómetros". Ou seja: para conseguirmos levantar dinheiro teríamos de voltar atrás, para o ponto de partida, e regressar. Pergunto se é possível levantar dinheiro no próprio restaurante, pagando a taxa. "Até seria, mas a máquina está fora de serviço. Tem sido um inferno hoje", diz-me. Como a compreendo.

Três ideias surgiram então para resolver o problema: pedir esmola até termos os cinco euros necessários, pedir boleia para a Barquinha, e para o regresso, ou encontrar quem me emprestasse uma bicicleta para que eu fizesse rapidamente o percurso até uma máquina multibanco. A primeira hipótese foi descartada. A segunda passou para solução extrema. Centrámo-nos nas bicicletas. O senhor de um barzito de rua disse que tinha uma bicicleta, mas "fechada na arrecadação do trabalho, não dava para ir lá buscar". O responsável pelo "centro cultural" da aldeia queixou-se três ou quatro vezes de não haver bicicletas para alugar, enquanto repetia "pois, é difícil agora" entre cada duas palavras. Voltámos para a esplanada, e quando falávamos com o dono do espaço a pensar em alternativas, passou um senhor que nos disse:

"Parece que estão com um problema? Venham daí, eu levo-os à Barquinha."

Abençoado. No fim do mundo ainda existem boas pessoas. Pelo menos uma.

De facto, o senhor levou-nos a Vila Nova da Barquinha, onde nos foi possível levantar dinheiro. E ofereceu-se para nos deixar na estrada, para regressarmos a pé para Tancos. Proposta que recusámos, perguntando onde havia táxis, porque a distância num fogareiro seria curta. O senhor hesitou por um momento, e disse:

"Não se preocupem, eu levo-os de volta a Tancos."

No fim do mundo, existem boas pessoas. Mesmo.

Chegámos a Tancos mesmo a tempo de ver o último barco para Almourol deixar o ancoradouro. Tenho para mim que, soubesse eu nadar, e teríamos ido a nado para a ilha. Tornámos a chatear o senhor da esplanada, que nos disse haver outro sítio com barcos. Teríamos de seguir a pé por um trilho paralelo à linha de comboio, e um quilómetro depois estaríamos lá. Um quilómetro? Sim, um quilómetro, um quilómetro e meio se tanto, assegurou o homem. Fizemo-nos à estrada, mas antes de chegarmos à linha, deparámo-nos com uma estrada de terra batida que parecia bastante mais fácil. Um atalho.

Que, como todos os atalhos, veio a revelar-se mais difícil do que o caminho principal. Incluiu corta-mato, cães a seguir-nos (sem demasiada agressividade, vá lá), descida de barrocas, subida por pedras, espinheiros e um sol abrasador. Mas chegámos ao destino: ao tal ancoradouro onde um senhor bastante divertido levava pessoas para a ilha do castelo no seu barquito a motor por um euro e meio, ida e volta. Foi assim que, às cinco e pouco da tarde (saímos de Lisboa às nove e quarenta) e entre piadas sobre o barco virar-se e a minha fantástica capacidade de conhecer o fundo do Tejo caso isso acontecesse, chegámos finalmente ao Castelo de Almourol. E valeu bem a pena o esforço, que, no fundo, acabou por tornar toda aquela viagem mais interessante e divertida. 

Após a visita ao castelo, o regresso à margem do rio no mesmo barco e uma cerveja na esplanada do sítio, voltámos para Tancos. Ainda faltava eu falar com os pescadores, afinal. Atalhos? Nem pensar: seguimos a linha de comboio, mesmo ao lado dela. Já não sei dizer se foram três se foram quatro os comboios que passaram por nós, mas aquele de mercadorias particularmente longo e particularmente rápido provocou um autêntico furacão entre o curto espaço entre a linha e a barroca - ou seja, exactamente onde nos encontrávamos. Chegámos por fim a Tancos, e após algumas voltas consegui finalmente falar com um pescador. Descobri também que não dava para comprar cigarros na aldeia, mas um habitante simpático deu-me o seu último cigarro quando lhe pedi um - coisa que em Lisboa ninguém faria, provavelmente nem eu. Posto isto, foi esperar pelo comboio, regressar ao Entroncamento, e por fim a Santa Apolónia.

Conclusão: tenho de fazer isto mais vezes. 

john

0 Comments:

Post a Comment

<< Home