6.3.09

who watches the watchmen? (II)

Está visto, mas não consegui perceber se gostei ou não da adaptação de Watchmen para o grande ecrã. Deixo aqui a minha opinião (sem estrelinhas, note-se). Cuidado com os spoilers.

Bom:

A banda sonora. Formidável. A cena inicial da morte do Comedian só ganha em intensidade quando a sua crua violência contrasta com a música serena que se ouve. Tal como o funeral, ao som de Sound of Silence, de Simon and Garfunkel. E de tantos outros momentos.

Os desempenhos dos actores. No global, estão muito bons. Destacam-se Jeffrey Dean Morgan no papel de Comedian e de Jackie Earle Haley no papel de Rorschach.

Os efeitos visuais, evidentemente.

A atenção ao detalhe, a pequenos pormenores que, não tendo direito ao pequeno papel que tiveram nas vinhetas do livro, são mostrados. Como a bola de neve de Laurie sobre a televisão, quando ela recorda a sua infância. Ou o cartaz da oficina de Hollis.

A forma como o filme conseguiu recriar as cenas principais da narrativa original, e afastar-se de momentos menos relevantes (Tales of the Black Freighter, como imaginei; ou o drama familiar do psiquiatra).

Terem incluído o interrogatório a Rorschach. Confesso que temia que essa passagem fosse eliminada, quando é dos melhores momentos do livro. E nela nota-se a inteligência de Snyder: Se bem me lembro, na graphic novel Rorschach mata o assassino da miúda algemando-o às condutas e dando-lhe uma serra, enquanto rega o armazém com gasolina. E diz, antes de chegar o lume ao combustível, que a serra não vai cortar o metal. Reproduzir esta cena teria sido um erro uma vez que, por aquilo que sei, um dos filmes da série Saw tem uma cena idêntica (a inspiração é evidente). Como uma boa parte do público não terá lido o romance original, poderia ser induzido em erro e pensar que Watchmen estava a fazer um decalque do outro filme. Boa opção do realizador.

Terem alterado o final, sem no entanto o seu sentido ser mudado. Evitou-se um prolongamento de um enredo que já ia bastante longo. E colocar Dr. Manhattan como culpado não belisca nem a história, dada a sua fuga, nem o brilhantismo de Adrian Veidt.

O genérico inicial, que funciona como uma excelente introdução à história.

Negativo:

Muitas cenas, ainda que retiradas directamente do original, parecem não encaixar como deviam. Sobretudo na primeira metade do filme, é frequente faltar ritmo à narrativa. Os constantes flashbacks são necessários, claro, mas de alguma forma parecem quebrar o ritmo.

Apesar de o interrogatório a Rorschach estar incluído, devia ter sido mais desenvolvido, em detrimento de outras cenas que não merecerão talvez o destaque que lhes foi dado. Teria sido interessante que o público compreendesse a origem da sua máscara, a mudança nele operada com o caso Kitty Genovese, a ironia de Rorschach ser submetido... a uma bateria de testes Rorschach.

O grande buraco no enredo: como raios o Comedian sabia da conspiração de Veidt? O governo mandou-o investigar Veidt? Não encaixa.

O regresso de Jon e Laurie a uma Nova Iorque devastada poderia ter incluído um pouco mais de gore. O filme tem sangue e corpos estropiados em quantidade suficiente para não fazer grande diferença ali, e a cena só ganharia em impacto.

Bubastis surge no final, mas a sua origem não é explicada. Aparece, do nada, na Antártida.

Teria sido importante alongar um pouco a exposição do passado de Adrian Veidt para o tornar mais complexo enquanto personagem. Assim, resulta na personagem mais pobre do filme.

A cena final manteve-se, mas para quem desconhece a graphic novel, o New Frontiersman é apenas um jornal. É certo que a trama política dos jornais teria de ficar de fora, mas a cena final perde impacto.

Conclusão: saí da sala sem perceber se o filme me tinha agradado ou não. Não está demasiado complexo para quem não leu a graphic novel (ou seja, não me pareceu um filme só para fanboys), mas de alguma forma falta alguma coisa. Enquanto adaptação, terá provavelmente sido a melhor possível, dada a densidade de Watchmen.

Nota: pela primeira vez em muito tempo, concordo com a crítica "oficiosa". Jorge Mourinha, no Público, não acerta no vinte, mas quase. Sobretudo com a sua conclusão: Ficamos assim, a meio caminho entre a admiração pela capacidade de pôr em imagens uma obra seminal e a frustração por não ser mais do que isso - que, é verdade, já é muito. Mas que, face ao que "Os Guardiões" é no papel, corre o risco de não ser suficiente. Lá está: falta aquele cunho pessoal que tornou O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson, numa extraordinária adaptação.

john

2 Comments:

Blogger Thiago de Paula said...

Acabei de ver o filme. E fiquei com muitas das suas impressões destacadas. Porém, não pude disfarçar o desapontamento com a alteração do desfecho do filme (com a remoção do alienígena pelo poder destrutivo do Dr. Manhattan). Essa parte do filme explicaria muitos dos pontos negativos: Bubastis, o conhecimento do plano por parte do Comediante, e daria muito mais impacto a cena do regresso de Jon e Laurie a Nova Iorque.
Bem, sou um purista quando se trata de adaptações. E vejo que esse não é o ´negócio´ em Hollywood. Mas isso explica o sucesso de ´O Senhor dos Anéis´de Peter Jackson, o qual jamais sairia do papel sem a aprovação do roteiro pela Sociedade Tolkien. Espero que os autores de graphic novels um dia valorizem suas obras a fim de garantir sua sua autenticidade, e não vender-se para um novo meio de divulgação.
Watchmen estava no arquivo há 20 anos. O seu regresso para o grande público seria só de mais uma nova grande história. Mas tinha um valor diferente para os fãs. Não justificava muitas das alterações sofridas, uma vez que 5-10 minutos a mais poderia resolver tudo isso (e a bilheteria pagaria todo esse esforço extra).
Bem, ao final de tudo, fiquei com dúvidas, como cinéfilo, se vou comprar o DVD do filme...

3:17 AM  
Blogger João Campos said...

Obrigado pelo comentário, Thiago.

Concordo consigo, seria interessante que o desfecho fosse mais próximo da graphic novel. Mas isso obrigaria decerto a mais tempo de película, apesar de Bubastis ser explicada e de o "buraco na narrativa" do Comedian desaparecer.

Outro aspecto interessante é ver como o "politicamente correcto" entra nos filmes de Hollywood. Se bem se lembra, na graphic novel Laurie é uma fumadora particularmente activa. Aliás, quando ela por engano activa o lança-chamas da Archie, até dá como desculpa "estar à procura do isqueiro" - o que em si é uma piada bastante boa, dada a situação, e gera a resposta ainda mais caricata de Dan: "ainda bem que não carregaste no botão dos mísseis ar-ar". No filme, Laurie nunca fuma.

O charuto do Comedian continua a fazer parte, claro, mas talvez isso se deva ao facto de, enquanto Laurie é uma personagem "boa", o Comedian é moralmente condenável (passe o eufemismo). Os bons da fita hoje em dia não podem ter vícios. Enfim.

Volte sempre, caro Thiago.

6:22 PM  

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