27.4.09

Estrangeiros

Este texto do Lourenço fez-me lembrar de um episódio curioso que ocorreu ontem no Intercidades entre Lisboa e Faro (no qual eu voltei para a capital após o 25 de Abril na terrinha - tenho um texto na calha sobre isso, acho eu). Não sei se os caros leitores sabem, mas a "racionalização de custos " levada a cabo pela CP (e pela Refer?) fez com que muitas estações de comboio fossem encerradas. Ou seja, os comboios até param lá, mas a estação encontra-se vazia, com a bilheteira encerrada e sem qualquer funcionário que diga a que horas é o próximo comboio ou que indique onde é a casa de banho. Na linha do Sul, a situação acontece, se não me engano, em Alcácer do Sal, em Grândola, na Funcheira e em Messines-Alte (só para falar das paragens do Intercidades). O que os passageiros - como eu - fazem é entrar no comboio, apanhar um lugar disponível e esperar que o revisor passe para adquirirem um bilhete.

Naturalmente que esta solução é problemática, sobretudo em dias em que o comboio está demasiado cheio - a lotação não é controlada (porque se as estações não emitem bilhetes o comboio não está esgotado), o que faz com que, por vezes, até haja gente sentada nas casas de banho. Pessoalmente, já perdi a conta do número de viagens que fiz sentado naqueles banquinhos altos do bar, a beber cerveja - ao menos o bar do Intercidades do Sul ainda funciona. Outro problema - para a CP, naturalmente - deriva do facto de que os revisores são, afinal, humanos, e incapazes de controlar todos os passageiros que entram em cada estação. Acontece assim que, por vezes, quem entra na Funcheira - como eu - consiga chegar a Sete Rios sem ver o revisor e, portanto, sem pagar bilhete. Ou acontece o revisor simplesmente não reparar num passageiro, e o passageiro, cioso da sua carteira, também não chama o revisor. Já disse até a um revisor que tinha entrado no comboio em Alcácer do Sal, quando tinha na verdade entrado na Funcheira - e ele sabia que eu o estava a aldrabar, era óbvio, mas não podia fazer nada.

Mas dizia eu no início que o texto do Lourenço me fez pensar num episódio que aconteceu ontem. Exacto, exacto. Já lá vamos. A rapariga que estava sentada dois lugares a seguir ao meu tinha também entrado na Funcheira e era obviamente estrangeira - não por causa dos longos cabelos loiros, dos (lindíssimos) olhos azuis, da roupa nitidamente turista (leia-se desleixada), das sandálias ou da grande mochila que carregava com ela. Mas porque, quando o revisor passou por ela sem se lhe dirigir para cobrar bilhete, ela abriu a carteira, retirou uma nota de vinte euros e foi atrás dele, para comprar o tal bilhete.

Eu quase senti vontade de dizer que da outra vez afinal não tinha entrado em Alcácer, mas na Funcheira, mas decidi ficar calado. Bastou-me a lição de civismo que aquela menina de olhos azuis me deu sem querer.

john

2 Comments:

Blogger Darkness Made Flesh said...

Na minha experiência a minha capacidade de absorver lições de civismo é directamente proporcional à beleza dos olhos da menina que a está a dar.

Aurea Mediocritas

5:43 PM  
Blogger João Campos said...

Nesse caso, o amigo ia absorver uma bonita lição. A rapariga não era particularmente gira, admito, mas os olhos eram fantásticos.

4:26 PM  

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