4.8.09

Exclamações, adjectivos e travessões.

Pessoalmente, é raro recorrer ao ponto de exclamação. Concordo com quase tudo o que tenho lido contra o infame ponto. Alguns exemplos:Justify Full
Com raríssimas excepções, eles [os pontos de exclamação] são o sintoma da absoluta falta de requinte estilístico, uma coisa demodée, meio rançosa, ideal para adolescentes idealistas e sonetos de amor foleiros, mas pouco própria para quem pretende levar a escrita a sério. (José Mário Silva)

O Senhor Palomar não gosta de autores que abusam do ponto de exclamação para mostrar uma tirada inflamada. Não só porque aprecia o discurso em tom sereno, como porque considera que não raramente esse tipo de caminho estilístico esconde uma profunda incapacidade de alguém se fazer explicar. Mas pior que tudo isso é a interpretação que se rouba ao leitor: após um grito nos nossos ouvidos, ninguém mais consegue raciocinar, isso é um dado adquirido. (O Senhor Palomar)

O ponto de exclamação é um excesso de ruído que não acorda ninguém, uma espécie de martelo pneumático colocado no final de uma frase. (Francisco José Viegas)

O que me aborrece nos pontos de exclamação é a falta de subtileza. O espalhafato. É como se o autor quisesse marcar as suas intenções de modo a quem nem o mais iletrado dos iletrados pudesse passar ao lado. Alguém escreveu que uma pessoa que usa pontos de exclamação é como alguém que se ri das suas próprias piadas. O ponto de exclamação é um modo de fazer a festa, deitar os foguetes e apanhar as canas. E isso não é nada interessante. (Pedro Mexia)

A aniquilação dos pontos de exclamação tem, como pode o caro leitor ver, apoiantes de peso. Sou sensível a todos estes argumentos, e diria mesmo que nos meus escritos também os sigo - excepto em diálogos, de longe o meu calcanhar de Aquiles a escrever ficção. Enfim, fraquezas. Voltando ao ponto: é precisamente por também eu concordar que o ponto de exclamação é quase sempre inestético que não posso contribuir para a causa, sem dúvida nobre, de tornar o ponto de exclamação num pária. O ponto de exclamação é um recurso da língua como qualquer outro. Tem a sua função. Pode ser substituído? Sem dúvida. Haverá decerto vários recursos estilísticos que podem perfeitamente passar a ideia de exclamação de uma forma mais elegante. Será perfeitamente possível escrever um romance inteiro sem usar, uma única vez, um ponto de exclamação. Um ponto e vírgula. Umas reticências. Que diabo: até podemos nem pontuar de todo, mandar a sintaxe ir bugiar e deixar ao leitor a tarefa de decifrar - ou de ir bugiar também. Mas todos esses recursos linguísticos existem, estão ali à nossa disposição, e volta e meia descobrimos que encaixam na perfeição naquela frase que escrevemos, mas à qual falta um certo je ne sais quoi (em francês fica sempre melhor).

De resto, entre os opositores à causa, encontro um comentário no blogue do Senhor Palomar que toca num ponto particularmente sensível. Espero que o seu autor, Paulo G., não me leve a mal a citação:

os adjectivos foram os primeiros a ser desprezados pela polícia da putativa elegância das línguas (“adejectando-os”...), seguiram-se os advérbios, assim, genérica e liminarmente (o meu despudor), agora é a perseguição circunstancial da exclamação, e até vem o Viegas de reticências em riste. É ofensivo. É indigno. Não têm todas as palavras a mesma dignidade? E os sinais de pontuação também não? Há nelas e neles um sistema de castas?

Bem visto. Há uns anos, mostrei ao meu professor de Português (excelente professor, que me ensinou mais do que qualquer outro no que à escrita diz respeito) um pequeno conto da minha autoria. Sabia que ele não iria gostar (nem eu gosto), mas também sabia que isso não o demoveria de fazer uma crítica séria e construtiva, com a qual eu poderia sem dúvida melhorar. E ele disse-me precisamente isso: elimina a adjectivação, recorre mais abundantemente ao substantivo. Foi o que fiz, com, creio, resultados satisfatórios. Noutra ocasião, mostrei-lhe outro conto, um devaneio que tive no início de uma noite e que me manteve acordado até de manhã a escrever, rescrever, polir, retocar. Um conto diferente (uma das coisas mais estranhas que escrevi na vida), carregadinho de adjectivos. Pareceu-me que soava bem. E mesmo o meu professor assumiu que, não gostando de adjectivos, para aquele texto não encontrava outra solução. Mais: elogiou a minha utilização de adjectivos actualmente caídos em desuso - imagino que por estar demasiado habituado a alunos com vocabulário escasso, e mesmo o meu não é grande coisa, enfim, ele já se tinha espantado por eu ler Dostoievsky, coisa que na altura muito o comoveu.

Adiante. Os adjectivos, ou os advérbios, ou as exclamações, ou as reticências, têm a sua utilização. Se o que está em causa é o texto jornalístico, como refere Francisco José Viegas, dou-lhe toda a razão: é de eliminar toda e qualquer marca de ambiguidade. No texto literário, tudo deve ser permitido. E o bom escritor, a meu ver, não é aquele que em nome da elegância elimina o adjectivo ou o ponto de exclamação, mas sim aquele que consegue tornar elegante o malfadado ponto. É aquele que domina os recursos da língua tão bem que esta dificilmente o atraiçoará.

E humildemente sugiro: uma boa causa literária pela qual lutar, uma que eu facilmente apelidaria de "fracturante", é a utilização de travessões para introduzir discurso directo (isto deve ter um nome próprio que, como é óbvio, me está a escapar). Se é de elegância que falamos, digam lá: não é muito mais elegante um romance em inglês, onde nenhuma linha é aberta com um travessão, mas onde todo o discurso directo é colocado entre aspas? O travessão é um excelente sinal de pontuação, sobretudo para substituir os parênteses. Mas em diálogos, as aspas funcionam muito melhor.

(E agora que concluí a parede de texto, gostaria muito - mesmo muito - de saber o que os meus camaradas de blogue, e leitores, pensam sobre esta questão.)

john

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