18.9.09

O pântano.

O problema do pântano a que, por carinho ou força do hábito, continuamos a chamar de Portugal e que já nem no futebol nos dá alegrias, é que todos os escândalos e todas as subsequentes investigações acabam por resultar em coisa nenhuma. Dito de outra forma, continuamos todos, com cada vez mais frequência, a ouvir falar das negociatas obscuras dos tempos de Macau, sem saber o que se passou, com quem se passou, e quem ardeu no processo. Tal como continuaremos sem saber ao certo se o escândalo da Casa Pia foi, de facto, um escândalo de pedofilia que envolveu todas aquelas figuras públicas ou apenas um complot obscuro. A dissolução da Assembleia da República por Jorge Sampaio foi rodeada de demasiadas coincidências que, à época, não incomodaram ninguém, e das quais hoje já ninguém se lembra. Os terrenos pantanosos do Freeport continuarão a ser pantanosos, com mais filhos de tio implicados ou menos polícias britânicos a chafurdar - é irrelevante. Tal como nunca se saberá ao certo o que levava a mala de António Preto, ou se os votos nas eleições do PSD foram realmente comprados. Ou se José Sócrates foi realmente favorecido na licenciatura. Ou o que Paulo Portas fotocopiou com afinco na sua última noite como Ministro da Defesa. O que se sabe é que todas estas histórias - e tantas, tantas outras - carecem de rigor enquanto se embebedam com especulação. O cidadão comum, mais ou menos esclarecido ou letrado - pormenor irrelevante aqui - faz os seus próprios julgamentos, mais ou menos sumários, e conclui que isto é tudo uma choldra. Um pântano, como dizia o bom Guterres, naquele que terá sido o seu único assomo de lucidez em seis anos de governação. Um verdadeiro pântano: lama, água estagnada e fedorenta, vegetação decrépita, nuvens de insectos à procura do sangue dos incautos. Não conhecemos o significado de "responsabilidade". "Mérito" é um conceito igualmente obscuro, apesar de haver agora um proto-partido que até inclui a palavra no seu nome. A "dignidade", essa, naufragou há muito. Se num assombro todos os casos acima citados - e os outros - fossem resolvidos, não ficava pedra sobre pedra neste país. Teríamos de fazer como aquele rei do inigualável Monty Python and the Holy Grail: construir castelo atrás de castelo no pântano, até que haja um que não se afunde, suportado pelas fundações submersas dos outros todos. E daí, talvez seja mesmo essa a solução. Como as coisas estão, é isso ou ir bugiar para tão longe quanto possível.

john

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