11.9.09

Onze do nove.

Tinha acabado de chegar de Odemira, quarenta minutos de curva-e-contracurva no velho autocarro que todos os dias fazia aquele percurso duas vezes. Daquela vez, fiz a viagem de estômago vazio: não tinha ainda almoçado, esquivei-me ao almoço na vila para me poder deliciar em casa com as iguarias da minha mãe - que, diga-se de passagem, valem bem aguentar a viagem de barriga a roncar. Caminhava pela aldeia quando reparei que o café estava cheio de gente - uns sentados, outros de pé, mas todos a olhar atentamente para um qualquer ponto na parede. Para a televisão. Tinha fome, mas a curiosidade venceu aquela batalha: entrei no café e olhei para a televisão, como toda a gente.

Imagens da SIC Notícias em directo, gentilmente cedidas pela CNN. Dois edifícios altos, muito altos, um deles a vomitar fumo negro, muito negro. Aproximei-me do balcão e perguntei o que se passava. O N., dono do café, responde-me "um avião chocou com uma das torres gémeas. Em Nova Iorque".

Confesso: nunca tinha reparado nas torres gémeas. Parece estranho, mas é verdade - eu, aos dezasseis anos, nunca tinha reparado nos edifícios que, soube na hora, tinham o nome de World Trade Center. Conhecia, claro, a Estátua da Liberdade, o Empire State Building, e mais alguns pontos emblemáticos da cidade. Mas nunca tinha reparado naqueles dois arranha-céus. Reparei naquele momento, e, esquecido das reclamações do estômago, fiquei no café a olhar para o pequeno ecrã. Os restantes clientes comentavam o acontecimento em voz baixa. "Um acidente terrível, o avião despenhou-se", diziam uns. Os restantes concordavam. Ninguém imaginava que uma tragédia daquela dimensão pudesse ser intencional.

Até que se vê um avião entrar no ecrã, muito rapidamente - e, tão rapidamente como entrou, desapareceu, consumido numa violenta explosão contra a outra torre. Os clientes do café soltaram um solene "foda-se", que se fez ouvir como um eco. Acabaram-se as dúvidas. Ali, naquele café perdido na não menos perdida aldeia de Sabóia, toda a gente que estava naquele café percebeu: o horror que viam pela televisão não era um acidente. Era intencional.

Fiquei no café durante algum tempo a conversar com as pessoas, a tentar perceber as imagens que tínhamos acabado de ver. Não fora um acidente: dois aviões tinham colidido, num curto espaço de tempo, contra aqueles dois edifícios de Nova Iorque. Mas quem, perguntávamos nós, a acompanhar a História em directo a partir daquela televisão de um café alentejano, quem poderia ter feito uma coisa daquelas? Quem poderia ter morto centenas de pessoas assim, de forma aparente simples mas que escondia uma tremenda complexidade, a complexidade necessária para desafiar a nação mais poderosa do mundo? Não tínhamos resposta. Discutíamos por discutir, como se as palavras nos alheassem dos dois horrores que a televisão nos trazia: o horror das mortes naquele atentado, e o horror de uma mente humana capaz de conceber um acto tão hediondo.

Saí e fui para casa. Não fui almoçar, como era inicialmente o meu plano: entrei, fui para o meu quarto e liguei a televisão. Continuei a acompanhar a emissão. A minha mãe entrou no quarto, perguntou-me se não tinha fome. Disse-lhe que sim, apontei para a televisão, para a nuvem de fumo que saía copiosamente das torres gémeas. Ficámos os dois a ver - num silêncio a espaços interrompido por uma pergunta, por uma explicação fútil. Disse a minha mãe a dada altura que os prédios deviam cair. Respondi-lhe que achava improvável, e expliquei: ambas colisões tinham ocorridos em pontos elevados dos edifícios, que, de resto, eram certamente muito sólidos; dificilmente cairiam, apesar de - lembro-me de ter pensado isto - o incêndio vir a ser muito difícil de apagar. Acabo de dizer isto e uma das torres, a segunda a ser atingida, desabou como um castelo de cartas, o seu topo fumegante a devorar tudo à sua passagem e a consumir Nova Iorque com uma nuvem de fumo e poeira. Imaginei as pessoas no café a soltarem um segundo "foda-se". A segunda torre desabou pouco tempo depois, de forma idêntica. Para quem quer que se encontrasse ainda com vida nos edifícios, não havia esperança.

Oito anos passaram e ainda ninguém esqueceu. Cedo se desenvolveram as teorias da conspiração, inúmeras, todas baseadas em evanescentes factos. Não acredito em nenhuma delas: vi o ódio visceral dos inimigos dos Estados Unidos a celebrarem a morte de quase três mil pessoas inocentes nas ruas das suas cidades, como se fosse a festa do padroeiro local. Alguns amigos chamar-me-iam de ingénuo, mas arrisco: com todos os defeitos que os americanos têm, nunca trairiam o seu povo e os seus valores daquela maneira. O responsável por os atentados, a mente distorcida que pode conceber aquele inferno, continuou livre, apesar dos esforços para o capturar. Haja justiça, e a saúde tê-lo-á traído entretanto. Como foram traídas todas as pessoas que perderam a vida de forma tão estúpida naquela manhã de Setembro.

john

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