8.10.09

A Maria Pia

Há recordes que são difíceis de bater. Não sendo obviamente bom no desporto, ou em qualquer outra coisa, eu julgava que o meu recorde de há três anos de duas horas no percurso Benfica – Alameda na carreira 16 era uma coisa singular e evidentemente inultrapassável. Enganei-me, naturalmente; e quero por isso redimir-me, e pedir ao caríssimo leitor que, da próxima vez que eu pense – que eu pense, apenas – em apanhar o 42 na Duque de Loulé (ou no que resta da Duque de Loulé após o Metro) com destino à Ajuda numa tarde de chuva, o caríssimo leitor seja solidário e que, não podendo dar-me boleia, me dê um par de estalos. Um dia de chuva, com ou sem hora de ponta, com ou sem rotunda do Marquês (apesar de tanto a hora de ponta como a rotunda do Marquês tornarem a coisa mais interessante) é perfeito para se constatar uma verdade tão elementar que nem precisa de um estudo científico para a demonstrar: mais de metade das pessoas que conduz automóveis em Lisboa não devia sequer conduzir uma bicicleta, quanto mais um carro. O trânsito na Marquês da Fronteira era lento e caótico. Nas Amoreiras, caótico e lento. Mas na Maria Pia falham-me os adjectivos que passem aquela ideia de lentidão. Digo-lhe apenas o seguinte, caro leitor: apostaria as minhas poupanças (não são grandes) em como o Eustáquio, o meu digníssimo cágado, teria descido a Maria Pia (salvo seja) pelo passeio mais rapidamente do que aquela carreira 42. Deu para – imagine-se! – sair numa paragem, acender um cigarro, e caminhar até à paragem seguinte antes de o autocarro chegar. Claro que não voltei a entrar no autocarro; entretanto um gajo chega a Alcântara, e aí há um velhinho eléctrico que sobe à Ajuda. Abençoado seja.

Claro que descer a Maria Pia (salvo seja) é sempre uma experiência interessante, sobretudo por causa das zonas pitorescas que atravessa – com nomes tão curiosos como Cruz das Almas ou Meia Laranja. Acho Meia Laranja um nome interessantíssimo, uma toponímia a merecer investigação urgente. Há nomes em Lisboa que se explicam a si mesmos, como Desterro. Outros são injustos, como o Calvário, pois não é necessariamente um calvário chegar ao Calvário, apesar de por vezes ser um calvário chegar à Ajuda. Trocadilho fácil, bem sei. Adiante; Há nomes que necessitam de revisão, pois já não se aplicam à sua situação actual. Como exemplo dou as Amoreiras, que se devia chamar de “’Tá todo lá dentro”, o Terreiro do Paço, que devia ter o nome de "Largo das Obras Públicas", ou mesmo o Campo Pequeno, que, em abono da verdade, nem é tão pequeno como isso. Podia também falar do Largo do Rato e de um edifício cor-de-rosa que lá há, mas não quero tornar este texto num texto político. E gosto de ratos, vejam lá (não daqueles). Há nomes que deviam voltar ao original, e digo isto porque há seis anos que vivo cheio de pena do Duque da Terceira, que tem uma estátua esquecida por todos, menos pelos pombos, naquela praça vulgarmente designada por Cais do Sodré.

Mais interessante ainda do que a toponímia de Lisboa serão os nomes que as pessoas dão aos seus estabelecimentos, sejam eles de que natureza for. Ali na Maria Pia, por exemplo, deparei-me com um café chamado “Vamos ao Amadeu” – e, mais abaixo, com outro já fechado com um toldo gasto a dizer “Vamos à Mila”. O que me leva a crer que a vizinhança "vai" mais frequentemente ao Amadeu que à Mila. O caríssimo leitor que pense o que quiser disto. Mas se for à zona não de deixe enganar: posso dizer-lhe que em princípio valerá mais a pena ir ao Amadeu do que ao “Happy Café”, pois este era o café com ar mais triste e desolado que alguma vez vi pela janela de um autocarro entupido no trânsito. A menos, claro, que o caríssimo leitor seja uma pessoa dada a trocadilhos, coisa para a qual eu tenho tanto jeito como para desporto, o que aliás é bem visível a qualquer pessoa que se dedique à leitura desta prosa.

E levei mais de duas horas do trabalho até casa, já agora.

john

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