28.12.09

Alergias, translacções, encontros.

Há anos que isto acontece: estou perfeitamente bem em Lisboa (bem de saúde, entenda-se) e, poucas horas após chegar ao Alentejo, as minhas alergias atacam-me em força com o seu arsenal de espirros, pingo no nariz e olhos rasos de água. Não sei porque isto acontece, pois eu era (sou) alérgico ao pó. Será que é apenas ao pó lisboeta hoje em dia? Não sei, mas é esquisito. Tenho uma explicação simples, e lógica: mudanças de temperatura. Penso numa explicação rebuscada: falta de gases poluentes que respiro em grande quantidade aqui em Lisboa, mas que lá na aldeia só consigo respirar se for dormir para a garagem (e mesmo assim...). Penso na ironia que seria a minha reacção alérgica ser causada por falta de nicotina, dado que lá pouco fumo. Um amigo lembra-me que isso não seria alergia, mas sim ressaca. Bem visto, bem visto. Imaginem: fazer-me mal ao nariz e aos olhos não fumar. Delírio, delírio.

Sempre que me ligas no aniversário até me fazes sentir mal. Eu sou uma amiga tão boa que me esqueço sempre do teu. És a melhor amiga que eu poderei algum dia ter, e por isso mesmo eu não cobro esse esquecimento. Mal está a amizade quando depende de protocolos tão ridículos como o aniversário - que, no fundo, é apenas mais um movimento de translacção. Não preciso que me ligues a dar os parabéns. Preciso apenas de que, quando nos voltarmos a ver, tudo se mantenha na mesma: a intimidade, a cumplicidade, a sintonia de pensamento que nos faz sorrir ou revirar os olhos - depende da ocasião - em simultâneo.

Nota-se em nós o passar do tempo no Natal. Não por ser Natal, mas porque as circunstâncias ditam que apenas nos conseguimos encontrar todos no Natal - e, por enquanto, em Agosto, algo que suspeito não se vir a repetir no próximo ano. Este passar do tempo não se nota no desvanecer da amizade, pois creio que essa é bastante resistente. Nota-se, sim, na crescente falta de disponibilidade que todos temos, cada um à sua maneira e pelos seus motivos. No jantar do próximo ano, seremos menos. E assim sucessivamente, até que o nosso jantar se torne apenas numa recordação.

john

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