A verdade e a mentira
Eu já sabia que noventa e nove por cento dos grupos no Facebook são merda em estado líquido, mas algum dia teria de falar disso aqui. Hoje tropecei num - salvo seja - que achei particularmente engraçado: "Pessoas que preferem verdades duras a mentiras ou silêncios piedosos!" Assim, com ponto de exclamação e tudo, que pessoas "honestas" e "sinceras" não temem a mentira e muito menos o ridículo. O grupo já conta com quase cinco mil e trezentas pessoas. Sim, 5300 (estou a arrendondar). Pobres almas. Que lhes fosse concedida uma semana de vida sem mentiras, só com a verdade absoluta, nua, pura e dura; uma semana de vida sincera e honesta, num preto-e-branco frio, sem cinzentos ou rasgos de outra cor; uma semana de vida sem recurso a uma palavra inconsequente que fosse. Finda essa semana, os que não tivessem aberto os pulsos a golpes de lâmina estariam a mamar anti-depressivos, em fila à porta do gabinete de psiquiatria mais próximo. É fascinante a confusão que grassa naquelas cinco mil e trezentas cabecinhas: que a sociedade é possível sem a mentira, que a sinceridade é sinónimo de dizer tudo aquilo que aprouver, que a honestidade para com os outros é possível sem a honestidade para connosco em primeiro lugar. Não é; se eles o soubessem, eles que também mentem, eles que também pintam a realidade com aguarelas baratas, eles que também andam em elipses sem fim a contornar um assunto, eles que também escolhem a piedade, e não a crueldade, não andariam a apregoar uma virtude que não possuem, pois tal virtude não é sequer humana. Haja as redes sociais para dar voz ao ridículo.
john
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