A independência #3
João,
Mondrien é para mim mais ou menos consensual, como são a maioria dos movimentos artísticos até à chamada "arte moderna" - dadaísmo incluído. Na "pop art", gosto muito dos quadros de Warhol e, sobretudo, dos trabalhos de Roy Lietchenstein. Mas acho que um idiota cagar para uma lata e escrever no rótulo "merde d'artiste" é apenas e só isso: um idiota a cagar para dentro de uma lata. Não é arte, e a ser artista, o senhor apenas foi "artista" na mui portuguesa definição do termo (na do povo). Mesmo dando de barato que o idiota tenha tido o bom gosto de escrever em francês, pois o inglês "artist's shit" seria obviamente inferior. Como acho a "instalação" do Pedro Cabrita Reis (e a maioria das "instalações" em si; aliás, o próprio conceito de "instalação" é para mim um disparate) um simples pedaço de sucata. Se calhar nem pretendia ser outra coisa, não sei, nem estou minimamente interessado em analisar um monte de pneus pendurados em ferro. Como a arte - ou falta dela - não é nem poderá jamais ser um tema consensual, cada um traça a sua linha como quiser e onde bem entender. Portanto, a minha linha, eu traço-a aí - ainda que algumas pessoas, hoje e amanhã, me vejam como um retrógado. Mas, parafraseando um grande senhor do nosso país, "eu quero que as pessoas se fodam". Artisticamente falando, claro.
Voltando ao ponto. Para ser franco, eu até concordo com o que dizes. Talvez fosse importante ter um teatro nacional capaz de assegurar temporadas de ópera decentes. Será sem dúvida importante assegurar o funcionamento de museus como o Museu Nacional de Arte Antiga, o Museu dos Coches, etc. Talvez haja realmente projectos artísticos que valham a pena - dás o exemplo da Cornucópia, e eu acredito que o seja, apesar de pessoalmente o desconhecer. Mas, no limite, a cultura deve pagar-se a si mesma. De nada serve teres um óptimo teatro ou um óptimo museu se ninguém for ver a exposição ou as peças. Tal como não serve para rigorosamente nada estares a subsidiar - a pagar, mesmo - a produção de um filme que ninguém vai ver. Acho que há aqui dois problemas fundamentais. Um deles é a incapacidade genética dos portugueses para com o mecenato. Não temos mecenas neste país. Nem um tipo como o Berardo, como bem se sabe. Por isso, a "cultura" apenas é possível com apoios públicos, o que é errado. O outro será a educação. A verdade é que os portugueses gastam muito pouco do seu tempo a visitar um museu, a ir ao teatro para ver alguma coisa mais interessante que os musicais do La Féria (não desfazendo; muita gente me diz que ele é um produtor muito bom), a ver um filme mais sofisticado que o Desaparecido em Combate ou o Scary Movie 3, etc. Percebes certamente onde quero chegar.
Relativamente aos apoios, subsídios, patrocínios, enfim. A meu ver, a política de subsidiação mais correcta é regional. Ou seja, os habitantes de Lisboa pagariam as suas coisas, como os habitantes do Porto pagariam as suas, como os habitantes de Odemira pagariam as suas, etc. Claro que para isto ser possível seria porventura necessário alguma forma de regionalização, e uma muito maior autonomia regional (local?), sobretudo em matéria de impostos. Mas não me parece que isto fosse mau - bem pelo contrário. O que acontece agora é que a "cultura" existe em Lisboa, sobrevive no Porto e é uma miragem no resto do país. E já que a cultura tem de ser subsidiada, então não poderá ser beneficiada apenas num sítio quando todos pagamos para isso.
E em jeito de adenda: não, o Ministério da Educação é, na verdade, o Mistério da Educação. Porque da 5 de Outubro não sai "educação", mas merda, e como se sabe há muito tempo. Aliás, acho que a "escola moderna", a tal que não chumba alunos, está mais interessada em ensiná-los a bater pívias do que a conherem o alfabeto ou a tabuada.
john
Mondrien é para mim mais ou menos consensual, como são a maioria dos movimentos artísticos até à chamada "arte moderna" - dadaísmo incluído. Na "pop art", gosto muito dos quadros de Warhol e, sobretudo, dos trabalhos de Roy Lietchenstein. Mas acho que um idiota cagar para uma lata e escrever no rótulo "merde d'artiste" é apenas e só isso: um idiota a cagar para dentro de uma lata. Não é arte, e a ser artista, o senhor apenas foi "artista" na mui portuguesa definição do termo (na do povo). Mesmo dando de barato que o idiota tenha tido o bom gosto de escrever em francês, pois o inglês "artist's shit" seria obviamente inferior. Como acho a "instalação" do Pedro Cabrita Reis (e a maioria das "instalações" em si; aliás, o próprio conceito de "instalação" é para mim um disparate) um simples pedaço de sucata. Se calhar nem pretendia ser outra coisa, não sei, nem estou minimamente interessado em analisar um monte de pneus pendurados em ferro. Como a arte - ou falta dela - não é nem poderá jamais ser um tema consensual, cada um traça a sua linha como quiser e onde bem entender. Portanto, a minha linha, eu traço-a aí - ainda que algumas pessoas, hoje e amanhã, me vejam como um retrógado. Mas, parafraseando um grande senhor do nosso país, "eu quero que as pessoas se fodam". Artisticamente falando, claro.
Voltando ao ponto. Para ser franco, eu até concordo com o que dizes. Talvez fosse importante ter um teatro nacional capaz de assegurar temporadas de ópera decentes. Será sem dúvida importante assegurar o funcionamento de museus como o Museu Nacional de Arte Antiga, o Museu dos Coches, etc. Talvez haja realmente projectos artísticos que valham a pena - dás o exemplo da Cornucópia, e eu acredito que o seja, apesar de pessoalmente o desconhecer. Mas, no limite, a cultura deve pagar-se a si mesma. De nada serve teres um óptimo teatro ou um óptimo museu se ninguém for ver a exposição ou as peças. Tal como não serve para rigorosamente nada estares a subsidiar - a pagar, mesmo - a produção de um filme que ninguém vai ver. Acho que há aqui dois problemas fundamentais. Um deles é a incapacidade genética dos portugueses para com o mecenato. Não temos mecenas neste país. Nem um tipo como o Berardo, como bem se sabe. Por isso, a "cultura" apenas é possível com apoios públicos, o que é errado. O outro será a educação. A verdade é que os portugueses gastam muito pouco do seu tempo a visitar um museu, a ir ao teatro para ver alguma coisa mais interessante que os musicais do La Féria (não desfazendo; muita gente me diz que ele é um produtor muito bom), a ver um filme mais sofisticado que o Desaparecido em Combate ou o Scary Movie 3, etc. Percebes certamente onde quero chegar.
Relativamente aos apoios, subsídios, patrocínios, enfim. A meu ver, a política de subsidiação mais correcta é regional. Ou seja, os habitantes de Lisboa pagariam as suas coisas, como os habitantes do Porto pagariam as suas, como os habitantes de Odemira pagariam as suas, etc. Claro que para isto ser possível seria porventura necessário alguma forma de regionalização, e uma muito maior autonomia regional (local?), sobretudo em matéria de impostos. Mas não me parece que isto fosse mau - bem pelo contrário. O que acontece agora é que a "cultura" existe em Lisboa, sobrevive no Porto e é uma miragem no resto do país. E já que a cultura tem de ser subsidiada, então não poderá ser beneficiada apenas num sítio quando todos pagamos para isso.
E em jeito de adenda: não, o Ministério da Educação é, na verdade, o Mistério da Educação. Porque da 5 de Outubro não sai "educação", mas merda, e como se sabe há muito tempo. Aliás, acho que a "escola moderna", a tal que não chumba alunos, está mais interessada em ensiná-los a bater pívias do que a conherem o alfabeto ou a tabuada.
john









1 Comments:
Quanto à regionalização, esse é muito mais um problema burocratico do que um problema artistico. A grande maioria dos artistas jovem querem expor pelo país e são a favor da descentralização. Mas a verdade é que se vê muito pouca procura da parte dos concelhos e das juntas porque, quando há, surgem projectos como o "Modelo Vivo", alusivo à história de D.Pedro e D.Inês. A arte, mesmo a contemporanea, pode ajudar a dinamizar tanto a capital como a mais simples aldeia.
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