Salada (sem pepino)
João,
não te tenho nem por fanático nem por socialista. Nem perto disso.
Segue agora a salada:
É verdade que durante o tempo de Sócrates se atirou muita lama, mas também se fez alguma investigação interessante - e útil. O caso da licenciatura é disso um bom exemplo (e nem foi um jornalista a pegar nele). A menos que consideremos um primeiro-ministro intocável, creio ser perfeitamente legítimo investigar - e, preferencialmente, sem receio - se é ou não verdade que o primeiro-ministro obteve uma licenciatura pela porta das traseiras (como se provou, apesar de não ser crime). Da mesma forma, parece-me perfeitamente legítimo que, havendo suspeitas sobre um grande empreendimento autorizado de forma duvidosa em paisagem protegida, se comece a investigar o caso precisamente pelos elementos do Ministério do Ambiente da época do licenciamento, ou mesmo se houve envolvimento (por acção ou omissão) do PM. É verdade que a partir deste ponto houve muita merda a ser atirada à ventoinha, mas não tenho dúvidas de que existiam fundamentos mais do que suficientes para uma investigação. Já as casinhas, concedo, são mais uma matéria de fait-divers, mas ainda assim um tal caso seria notícia em qualquer parte do mundo.
Já agora, e pegando num caso diferente, considero absolutamente escandaloso o processo movido por Cavaco Silva contra o director da revista Sábado. É uma socretinice que não lhe fica nada bem, sobretudo quando, à data do artigo em causa (por acaso certeiro), não era ainda Presidente. E ainda que fosse.
Adiante. Se te referias às declarações de Ana Gomes:
1) Considero perfeitamente legítimo que ela pense que Portas pode não ter legitimidade moral para governar devido aos casos nos quais se viu envolvido. Aliás, até concordo mais ou menos com ela, apesar de achar que a senhora esteve convenientemente caladinha durante seis anos.
2) Considero pulha a comparação a Strauss-Kahn, assim como as postas de pescada mal amanhadas sobre prostituição masculina. A este nível, só talvez a tirada dos "colos" usada por Santana Lopes na campanha de 2005, igualmente torpe.
2.1) De resto, desde que não use para tal um carro do Estado e dinheiros públicos, não me interessa onde, como e com quem um político - esteja ele no Governo, no Parlamento ou numa autarquia - vai dar umas quecas.
O pepino:
Não sei se seria possível ter apenas 10 ministérios, mas não vejo por que não (1 - Defesa, 2 - Finanças e Economia, 3 - Agricultura e Pescas, 4 - Saúde e Solidariedade Social, 5 - Educação, Ciência e Ensino Superior, 6 - Obras Públicas e Ordenamento do Território, 7 - Justiça, 8 - Administração Interna, 9 - Negócios Estrangeiros. Nove. O resto distribui-se por secretarias de estado). Nem me lembro de ter ouvido Passos Coelho dizer que não houve crise internacional - o próprio Sócrates tentou puxar esse argumento no debate, e a coisa correu-lhe mal. Ninguém, que me lembre, nega que houve crise. Houve foi uma forma particularmente infantil, obstinada e irracional de lidar com ela, e o resultado está à vista. Convém também lembrarmos os juros que pagámos este ano (bem acima dos sete por cento), as benesses todas de 2009 - a crise deve ter ido de férias durante a campanha eleitoral - e as declarações lunáticas de alguns ministros que, ao longo dos anos, foram declarando o fim da crise, enfrentaram a crise orientando-se pelas estrelas e insistiram em todos os disparates possíveis e imaginários, de um aeroporto onde Judas perdeu as botas a um TGV de utilidade duvidosa e de construção escandalosa num país onde a linha férrea convencional está a ser paulatinamente destruída.
Sim, os próximos tempos serão conturbados, nem todos os objectivos serão concretizáveis, e é perfeitamente possível que o governo de Passos Coelho e Portas venha a revelar-se uma bela merda. Mas merda já o outro foi. Uma vez mais, meu caro, é essa a grande vantagem da democracia: podermos correr com governos que não nos servem. E o anterior não servia - deu provas disso vezes sem conta. Como tal, até 5 de Junho era absolutamente secundário pensar se o governo do PSD ou do PSD+CDS seria bom ou mau. A partir do momento em que este Governo tomar posse, começamos a avaliá-lo. Se for tão mau como o anterior, daqui a quatro anos (ou menos) corremos com ele. É simples.
É mesmo assim tão simples.
john









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