29.1.08

o jornalista e a má vontade

pois é, camarada fábio: nós, jornalistas, somos todos uma corja de abutres, sempre em busca de carne podre para fazer a festa. nos cursos de jornalismo, comunicação e quejandos, desde o cenjor à fcsh, existe uma cadeira mais ou menos secreta (tão secreta que bolonha nem lhe atribui créditos, vê lá tu) intitulada "técnicas de ataque a ministros e de criação de editoriais, vá, desagradáveis". na gíria, tamcevd. nesta cadeira, entre muitas outras coisinhas úteis, aprendemos o impensável: que um caso como aquela surreal conversa dos serviços de emergência que todos ouvimos no telejornal ou no youtube é notícia, e que os milhares de boas práticas das urgências nacionais (impressionante como o ministro conseguiu falar em casos de sucesso das urgências sem se rir) não o são. isto é, como facilmente se pode ver, um escândalo: então desde quando o anormal é notícia? um caso daqueles, como outros (vide a licenciatura do nosso primeiro, por exemplo), é de uma irrelevância tal que deve, sim, ser abafadinho por nós jornalistas. vá, podemos escrever qualquer coisa sobre o assunto: uma breve de 200 caracteres no jornal, entre o anúncio de um t2 mobilado na ameixoeira e o de uma "meiguinha e gostosona" na alameda; ou uma ligeira nota de rodapé no noticiário das oito. mais do que isso, nem pensar. o que faz sentido, claro: o que é que interessa ao país saber que o seu sistema de saúde é caótico, e que não existe qualquer articulação entre os vários serviços de emergência médica? ainda por cima, naquele caso concreto, o homem já estava morto e tudo. se estivesse, vá, em paragem cardíaca, certamente que a coisa tinha corrido melhor. como diria o mui iluminado ministro da saúde, em 15 minutos estaria lá o inem, e como se sabe, em 15 minutos ninguém morre. e se morrer, é mesmo por má vontade.
ora má vontade é o que não falta aos jornalistas - esses pulhas -, quando exibem coisas destas. como há-de o país avançar e modernizar-se, se existe por aí meia dúzia de safados consantemente a desmoralizar, a falar de idosos que morrem nas urgências quando caem de uma maca, a referir bombeiros que não sabem o que hão-de fazer, a colocar perguntas maçadoras ao senhor ministro e a trabalhar com critérios editoriais mauzinhos para com os nossos excepcionais governantes?
está tudo louco, é o que é.
jc

1 Comments:

Blogger fábio videira santos said...

Está tudo dito, e bem dito, camarada joão.

Não fosse o nosso amor por este pedaço de terra rectangular, nem sei como seria.

Abraço
F.S.

3:16 PM  

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