15.4.08

Acordo

Tudo aquilo que se poderá dizer sobre o famigerado acordo ortográfico é, em qualquer caso, insuficiente e mesmo, na grande maioria dos casos, inútil. Convém, no entanto, fazer uma ligeira historiografia dos factos: (i) já em 1986 foi arquitectado e negociado um acordo que, nomeadamente, suprimia a generalidade dos acentos e, também, a utilização de hífens etc. Este acordo provocou uma forte mobilização contra ele que, na realidade, abortou o seu avanço; (ii) em 1988 houve uma reformulação do acordo e em 1991 pronunciaram-se várias organizações institucionais contra o dito (entre os quais já se contava, desde 1986, o próprio departamento de letras da Universidade de Lisboa) e o Presidente da Republica de então tinha já promulgado o documento; (iii) já nessa altura muitos foram os que visceralmente se insurgiram contra as tentativas de normalização ortográfica e, entre eles, já estava Vasco Graça Moura. Julgo ser de razoável bom-senso reconhecer razoabilidade em ambas as facções que emitem opiniões sobre este assunto. Nesse sentido, a discussão prende-se, fundamentalmente, com dois pontos:

1. A supressão das consoantes mudas (c de acção, c de facto, p de óptimo, etc) prende-se com o facto de não serem pronunciadas (isto é, mudas). Contudo, sendo a pronunciação das palavras propriedade de quem as pronuncia, não me parece que seja legítimo que se obrigue alguém a pronunciar ótimo no caso de esse alguém pronunciar óptimo. Mais, no caso de pronunciar adopção, a supressão da consoante p poderá, em último caso, levar facilmente à expressão adução que possui significado completamente díspar.

2. No caso das chamadas facultatividades, parece-me óbvio que quando um acordo possibilita a utilização facultativa de ortografia está, nesse momento, a perder a sua característica de acordo e passa a documento que permite o desacordo na norma escrita.

Convém, também, aduzir um facto importante e que sistematicamente é ocultado na discussão deste tema que é o facto de aqui se estar a querer apenas uniformizar a ortografia. Deixando de lado todos os outros elementos distintivos entre as vertentes europeia, africana e brasileira do Português enquanto língua universal. Ortografia é, apenas (e aqui o apenas não se refere ao sentido de diminuição de importância, mas antes de separação face à sintaxe e à gramática, por exemplo) a norma-gráfica em que uma determinada língua é escrita e cumpre a sua função de meio comunicativo entre seres que partilham a mesma linguagem. Neste sentido, a tentativa de normalização da grafia preserva toda a diversidade linguística que as vertentes do Português supra-citadas conservam.

jtf

1 Comments:

Blogger João Campos said...

boa análise.

mas vejo-me obrigado a discordar do último ponto.

a alteração na grafia da língua irá, a prazo, alterar a sua forma oral também. quanto mais não seja, porque as gerações mais novas irão aprender a língua portuguesa de acordo com as novas normas, e consequentemente aprenderão a "dizê-la" de forma diferente. Isso não quererá dizer que no período de uma geração todos os jovens digam "diferentchi" em fez de "diferente" (e depois os mais velhos, por arrasto e por pressão mediática). Mas haverá mudanças, e serão significativas.

por outro lado, mais do que um "desacordo", o "acordo ortográfico" acaba por não ser exactamente um acordo. como afirma um amigo meu, um acordo pressupõe cedências de todas as partes envolvidas, e não me parece que seja aqui o caso.

a minha oposição ao (des)acordo ortográfico prende-se, essencialmente, com a sua absoluta inutilidade. da mesma forma que há diferenças no inglês de um autor britânico ou de um americano, também as há entre um escritor brasileiro e um português; daí a serem inacessíveis vai um grande passo. eu posso ler um livro em brasileiro. serei capaz de compreendê-lo na sua totalidade, apesar do ruído que a leitura irá provocar. não me venham dizer que um brasileiro não consegue ler um Lobo Antunes sem "tradução".

enquanto jornalista, terei invariavelmente de ceder ao malfadado acordo ortográfico, e adaptar a minha grafia mais cedo mais tarde. mas enquanto "pseudo-escritor", acredita que mais depressa passo a escrever todos os meus contos e esboços em inglês. O que para além de ser bom para a prática da língua, é também mais útil do ponto de vista editorial, se tiver qualquer ambição nesse campo.

jc

12:04 PM  

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