30.5.08

overrated

num (óptimo) texto sobre o filme blade runner, pedro mexia tece algumas considerações sobre o universo cinematográfico da ficção científica, onde considera o projecto matrix "muitíssimo sobrevalorizado". achei esta ideia curiosa, dado que as duas sequelas - reloaded e revolutions, respectivamente - tiveram uma péssima aceitação por parte da crítica e mesmo de muitos fãs.

contrariamente a pedro mexia, não consigo ver como pode o projecto dos manos wachowsky ser "muitíssimo sobrevalorizado". a verdade é que matrix, em 1999, mudou de forma radical a forma como os filmes em geral (com os géneros de acção e de ficção científica em particular) são filmados. certo: podem dizer-me que eles não terão sido os inventores definitivos do bullet-time. mas foram eles que o elevaram a uma condição estética tal que ainda hoje, volvidos quase dez anos, continua a ser impressionante. também não terão sido os irreverentes irmãos os primeiros a compreender o potencial da câmara-lenta, mas conseguiram manipular a técnica de forma sublime. mas mais do que isso: numa época como a presente, em que abundam os filmes desinteressantes que enchem salas à custa dos efeitos especiais, a trilogia matrix continua a ser um autêntico balão de oxigénio, a prova inequívoca de que é perfeitamente possível um filme ter os mais espectaculares efeitos especiais que existem sem ser, no limite, um filme sobre efeitos especiais.

claro que o hype gerado por matrix não se deveu apenas aos efeitos especiais - atrever-me-ia mesmo a dizer que o grande hype foi "filosófico". o enredo do filme cruza várias influências filosóficas, várias escolas de pensamento - e deu origem a um sem-número de fórums de discussões, tópicos em aulas, e mesmo livros (alguns bastante interessantes). ora foi precisamente o enredo que críticos e fãs devastaram com empenho em reloaded e revolutions. aqui afasto-me do texto de pedro mexia, uma vez que não conheço as suas opiniões sobre o enredo dos filmes - para dizer que o problema é que muitos críticos e fãs nunca compreenderam aquilo que verdadeiramente estava em causa no terceiro filme, e que já tinha sido anunciado no primeiro e no segundo. compreendo que, perante o êxtase dos efeitos especiais, sobretudo no grande écrã, seja fácil perdermos o fio à meada. mas experimentem: vejam novamente matrix, e dêem especial atenção ao monólogo do agent smith com morpheus, quando o primeiro mantém o segundo aprisionado. vejam de seguida algumas passagens do dvd animatrix (the last flight of the osiris e kid's story para introdução a reloaded, e muita atenção ao estranho matriculated). depois, vejam reloaded, e prestem muita atenção à breve cena de conversa do conselheiro com neo na zona das máquinas de zion, e, claro, ao momento em que neo e o arquitecto se encontram. e, por fim, passem para revolutions - e, como diriam os americanos, "think outside the box". concedo que o argumento de revolutions (e, por arrasto, de reloaded, e mesmo de matrix) não é óbvio; exige algum pensamento, alguma reflexão, e, diria mesmo, alguma criatividade. mas só por isso, o enredo da trilogia nunca será inferior a genial.

uma pequena dica: nos filmes, a personagem persephone (monica bellucci) é um programa intuitivo desenvolvido pelas máquinas para compreender o amor. daí ela dizer a neo, após o beijar, que o amor entre ele e trinity é verdadeiro, mas não durará (o que se verifica). quem jogou o fraquinho enter the matrix consegue compreender isto melhor: quando persephone beija ghost, o imediato da nave logos, compreende que ele ama alguém que não o ama a ele (para quem não sabe, trinity). e quando beija niobe, comandante da logos (sim: no videojogo, monica bellucci e jada pinkett smith beijam-se), compreende que quem ela ama não é o comandante lock, mas sim morpheus (o que se vem a verificar). quando joguei o jogo e vi o segundo filme, formulei a seguite tese: o derradeiro objectivo das máquinas era quebrar a última barreira que as separa dos humanos - a capacidade de amar. os vários "eleitos" que surgiram ao longo das várias versões da matrix - neo incluído - eram, na verdade, inteligências artificiais e tinham como objectivo, portanto, conseguir amar e ser amados, e realizar assim a derradeira fusão entre homens e máquinas. persephone seria, portanto, um teste; e vários elementos do filme e do jogo me fizeram tomar esta teoria como conclusão óbvia. não foi, e persephone acaba por ser uma ponta mais ou menos solta (passe a expressão) do enredo. no entanto, nem todos os pontos da minha pequena teoria se revelaram errados.

e mais uma pequena dica, retirada directamente do guião de reloaded, e que diz praticamente o que está em causa nos filmes:


smith: thank you. but as you well know, appearances can be deceiving, which brings me back to the reason why we're here. we're not here because we're free, we're here because we're not free. there's no escaping reason, no denying purpose - because as we both know, without purpose, we would not exist.


jc

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