13.5.08

"tabaquear o assunto"

tabaquear o assunto é uma expressão curiosa de uma das minhas melhores amigas, que basicamente significa "vamos dar uma volta, fumar um cigarro e conversar?". adequa-se, portanto, ao texto que se segue, suscitado pelo artigo anterior do camarada joão:

joão, referes aqui o "tabaquear o assunto" do nosso primeiro ministro, e nos comentários referes a "ofensiva da dupla belmiro/j. m. fernandes contra sócrates". certo. o público tem dedicado algumas manchetes ao primeiro ministro. no entanto, se pensares bem, o que é estranho não é a "ofensiva" do público, mas o silêncio quase reverente da restante comunicação social.

o caso da licenciatura foi "mediatizado" pelo público, mas a sua investigação partiu de um blogue - aliás, creio que o autor desse blogue teve alguns "problemas", passe o eufemismo, na sequência dessa investigação. se me disseres que não é fundamental (sobretudo num país como o nosso, onde abunda a prática do "canudo-a-pedido") a um primeiro-ministro ter uma licenciatura, estou de acordo. se existem irregularidades na forma como essa licenciatura foi obtida, então a questão torna-se importante, e há toda a legitimidade para exigir esclarecimentos. não creio que um caso idêntico em inglaterra ou nos estados unidos ficasse em águas de bacalhau como aqui ficou.

o caso dos projectos da covilhã foi mais um caso de contornos estranhos que não foi esclarecido como devia. segundo parece, aquilo que foi feito não é ilegal - o que, porém, não o torna propriamente ético (e as casas em questão são um atentado, diga-se de passagem).

este caso recente do nosso primeiro a "tabaquear o assunto" num vôo para caracas é grave na medida em que revela o desprezo (é que nem é desrespeito, é mesmo desprezo) dos nossos governantes pelas leis que eles mesmos aprovam. que o vôo seja fretado ou não é irrelevante - a bordo dos aviões da tap não é permitido fumar, todas as indicações de vôo apontavam nesse sentido. ponto final. a sensação que passa é a de total impunidade de meia dúzia de "eleitos" (em ambos os sentidos). joão, o ponto é simples: se eu num avião da tap acender um cigarro, e perdoa-me o calão, fodo-me - e bem fodido. não me poderei socorrer do brilhante argumento "é costume".

as leis que saem da assembleia da república aplicam-se a todos - sem excepções. se me perguntares se o primeiro ministro devia ser demitido por este caso, obviamente respondo-te que não. que deve ser penalizado (onde está a asae?), deve. e o caso não pode ser esquecido. é mais um prego no caixão da descredibilização da nossa classe política. e mais um prego na descredibilização deste governo. sócrates tem de esclarecer o assunto - ou então está a passar a mensagem de que o poder político é, para todos os efeitos, superior às leis nacionais.

vamos ver se alguém na assembleia da república levanta a questão. evidentemente que não estamos em inglaterra, onde os próprios membros da bancada parlamentar do partido trabalhista foram os primeiros a exigir explicações ao primeiro ministro sobre o desaparecimento de dois discos rígidos onde estavam armazenados dados confidenciais de milhões de cidadãos britânicos. note-se - a própria bancada parlamentar do partido que estava (e está, ainda) no governo. por cá, tal será impensável, independentemente da cor de quem estiver no poleiro. mas alguém tem de exigir esclarecimentos.

jc

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