5.11.08

E para mim, neste momento...

... mais relevante do que as eleições americanas é a polémica em redor do porto de lisboa. E nesta área, inclino-me mais para a posição de Tomás Vasques, tão bem exposta neste texto que passo a citar:

Eu leio-os, como quem lê epitáfios. E em cada leitura, cada vez mais, «há, nos olhos meus, ironias e cansaços». Eles «não sabem, nem sonham» como há 40 anos, ali, na Rocha de Conde Óbidos, o cais fervilhava de gente de trabalho e a actividade portuária e a reparação naval eram as únicas actividades por aquelas bandas. Um quiosque madrugador servia o «pequeno-almoço» aos operários do estaleiro naval e aos estivadores e marinheiros, entre as 7 e as 8, ainda «eles» dormiam a sono solto. E os barcos aportavam uns atrás dos outros. E os guindastes se perfilavam atarefados nas cargas e descargas. E os sacos eram alombados por homens de trabalho. O porto – o Porto de Lisboa – como diziam as placas em letras negras em fundo branco, era (e é, ainda) o modo de vida de milhares de pessoas. Era um tempo em que eu, com 18 anos, de fato-macaco, palmilhava a zona, à hora de almoço, à procura da refeição mais barata. E por lá nunca encontrei as outras «pessoas», aquelas que , hoje, não querem que os contentores lhes ofusquem as vistas . E, muitos deles, têm a minha idade. Os cais, os guindastes, as gaivotas, as tascas, o rio e o cheiro a maresia eram só «nossos». Naquele tempo, aquelas «pessoas», que hoje querem contemplar as vistas, não se queriam misturar com operários a cheirar a nafta e estivadores a cheirar a suor. Mas, hoje, Lisboa já é das «pessoas», como é de bom tom e democraticamente aceite. É de quem contempla as vistas, de quem almoça em restaurantes caros, de quem escreve nos jornais. Não é de quem trabalha no porto; de quem tem de levar o salário para casa para sustentar a família, mas de quem quer contemplar as vistas. Para ser rigoroso, no entendimento dessas «pessoas», o porto de Lisboa deve ser de quem tem casa no Alentejo, escreve nos jornais, bota palavra nas televisões e, para descontrair de tanta azáfama, quer vistas largas sobre o rio. Isso de operários, contentores, trabalho, produção, e outras merdas desse tipo só lhe atrapalha a vida e cheira mal. Sobretudo a suor, o que «eles» detestam. Eles, com o dinheiro que ganham por andar nestas andanças da «opinião», gostam mais de passarinhos!

A verdade é que em Lisboa, o rio já é das pessoas. De Algés a Belém. No Parque das Nações. Sê-lo-à em breve (se não é já, não vou muito para aqueles lados) entre a Baixa e Santa Apolónia. Um porto de grandes dimensões, mais do que uma necessidade económica, é algo que faz todo o sentido numa cidade como Lisboa - não me parece que tenha sido fundada pela beleza das suas sete colinas, ou pelo café da Brasileira. 

O que me parece relevante nesta história toda é, por um lado, o facto de a concessão do porto ter sido feita sem concurso público, e por outro, o tresandar a politiquice rasteira que por ali anda. 

jc

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