9.3.09

Vem por carta ou é preciso ligar para lá?

Palavra de honra que parece que a Igreja Católica tenta, por todos os meios possíveis, que eu me envergonhe da minha educação católica, isto é, da educação que os meus pais me decidiram dar e que, quer o negue ou não, foi parte importante no processo de crescimento pessoal (que ainda não acabou, diga-se). Hoje em dia, considero-me um católico não praticante com tiques de ateu (tudo graças às saudosas aulas de filosofia e a novas leituras naqueles meus quinze anos de ponto de viragem). E o engraçado é que verifico que, de todos os ensinamentos que a doutrina cristã me poderia ter incutido, sobressai em mim a responsabilidade - é o que os meus pais, parte interessada, dizem. O resto dos adornos cristãos fui perdendo, não reconhecendo agora qualquer falta deles.
O que não pode passar sem reflexão, em algumas pessoas mais noutras menos, são estas situações. Ora vejamos: a Igreja decidiu excomungar a mãe e os médicos que fizeram uma interrupção da gravidez a uma menina de nove anos que foi violada pelo padrasto. Repito: nove anos (e nem sequer me refiro à ignóbil atitude do padrasto). Se alguém olhar para este caso e não consentir que o acto dos médicos foi correctíssimo, indo de encontro a salvar a criança que com nove anos não possui um corpo preparado para uma gravidez (ainda para mais de gémeos) e que poderia ficar estéril ou até mesmo morrer se levasse a gravidez até ao fim, pondo também em risco a vida dos bebés, é porque tem uma teimosia doentia. O que me surpreende nestas alturas é a exacerbada importância que se dá à Igreja. Nestes casos, salvo raras excepções, coloco toda as decisões na ciência: já deu bastantes provas que, frequentemente,as suas acções são as mais equilibradas e ponderadas. Eu sei que esta dicotomia estará sempre presente - e respeito as convicções religiosas daqueles que as empregam - mas há coisas que a minha racionalidade não compreende.
Posto isto, uma vez que não faço a mínima ideia de como se concretiza o processo de excomunhão - só conheço as suas consequências -, resta perguntar: vem por carta ou é preciso ligar para lá?





fs

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