4.5.09

A feira dos autógrafos

Uma amiga perguntava-me ontem se já tinha ido à Feira do Livro. Respondo que não, que ainda não fui lá, mas tenciono - graças à Tinta-da-China, que este ano está lá em parceria com a Penguin - e clássicos da Penguin com desconto não é coisa a desperdiçar, naturalmente. Ou seja, quebro assim um jejum de dois anos, nos quais acabei por não ir à feira que por volta do mês de Maio anima o Parque Eduardo VII. Aborrecia-me a falta de pontos onde se pudesse beber qualquer coisa (a minha amiga diz-me que isso foi resolvido), aborrecia-me a horda de pessoas que por lá se passeava a exibir o saquinho recheado com livros que, porventura, não chegaram a ser lidos. Acho um disparate os descontos serem tão escassos e pouco apelativos - espero que tenham também corrigido esse aspecto. Aborrecia-me, e aborrece-me, ver um dos meus sítios preferidos de Lisboa - a esplanada do bar Linha d'Água - sobre-sobrelotado. Não que lá vá todos os dias, nem sequer todos os fins-de-semana, mas em dias de feira nem sequer essa hipótese pode ser colocada.

Da feira, recordo-me de ver José Saramago sentado numa desconfortável cadeira de plástico, a torrar a moleirinha ao sol, a assinar livros atrás de livros para uma (muito) longa fila de leitores (ou simplesmente de pessoas que, apesar de não tencionarem ler Saramago, acham chic a valer terem um exemplar assinado pelo Nóbel). Pobre Saramago. Já Lobo Antunes, por exemplo, considera que isso "é um dever para com os leitores". Compreendo, apesar de o conceito de autógrafo me fazer uma certa comichão. Um autógrafo é apenas uma assinatura, a prova de que um fã conheceu o seu ídolo, para usar dois termos um pouco mais radicais. Mas essa prova é inútil, porque aquilo que conta é conhecer uma pessoa que nós admiramos pelo seu trabalho. Eu, por exemplo, gostaria muito de conhecer o Philip Pullman, o Salinger (mais difícil do que arranjar uma audiência com o Papa), o Christopher Tolkien, a J.K. Rowling, a Joan Vinge. Também gostaria imenso de privar com o Thom Yorke ou o Matthew Bellamy. Ou com a Allison Sudol, sei lá. Mas não pediria autógrafos. Também não tiraria uma foto com eles, até porque certamente não teria nenhuma câmara comigo e o meu telemóvel ainda é do tempo em que os telemóveis serviam para chamadas, SMS e despertador apenas. Conversaria com eles sobre o seu trabalho. Agradeceria ao Yorke ele ter escrito a Idioteque. Diria à Mrs. Vinge que a rainha Arienrhod foi uma das mais interessantes personagens que conheci em literatura. Coisas dessas, estão a ver. Partilharia com Christopher Tolkien uma (boa) garrafa de vinho, e brindaríamos ao seu pai. E convidaria a menina Sudol para um jantar em sítio discreto e de bom gosto.

Mais engraçadas são aquelas pessoas que nunca leram nada de um escritor, mas que compram um livro que poderão vir a ler - ou não - apenas por terem a oportunidade de o autor dar o seu autógrafo na contracapa. Já vi casos. Transcendem-me, lamento.

Disse ontem à minha amiga que não faço listas de compras, nem sequer quando vou ao Minipreço, pelo que não tenho um plano de compras para a feira. Mas há coisas que gostaria de encontrar, e que devo comprar. E outras que gostaria muito de comprar, mas que não vou arranjar. Como uma paperback edition do Hitchhiker's Guide to the Galaxy, de Douglas Adams, ou uma edição de língua inglesa do Altered Carbon, de Richard Morgan. Mas isto já seria pedir um bocadinho de mais.

john

1 Comments:

Blogger L.Chatterley said...

Bonito, sim senhor. :)

9:43 PM  

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