8.6.09

Da gratidão

A inefável Ana Gomes tem um artigo notável no Causa Nossa:

É um direito.
Um direito que só vale se for exercido.
E é um dever também.
Convém não esquecer que houve quem morresse para nós podermos votar livremente em Portugal.

Adoro o raciocínio da última frase. Levado ao extremo, pode-se argumentar que quem emigra está a trair a pátria pela qual Dom Afonso Henriques tão fervorosamente se bateu, e que tantos portugueses defenderam ao longo de novecentos anos.

Mas no fundo, Ana Gomes até tem razão quando disse que houve quem morresse para nós podermos votar livremente. E votar livremente também implica não votar.

Ler estas merdas dá-me vontade de nunca mais votar.

john

5 Comments:

Blogger L.Chatterley said...

Não vais acreditar, mas recebi uma sms de um amigo meu que dizia assim: «Caros amigos, não se esqueçam que hoje votar não é um direito, é um dever».
Porquê este moralismo tóto? I just dont get it, and i agree with you obviously!

6:32 PM  
Blogger João Campos said...

Diz ao teu amigo que leia o João Pereira Coutinho no Correio da Manhã. E que sublinhe esta passagem:

Os defensores do voto obrigatório acreditam, como os Gregos, que não participar é sintoma de imoralidade ou idiotia. Os defensores deviam saber que a visão, para além de autoritária, acabaria por retirar à democracia o seu valor intrínseco: ser um espaço de escolhas. E as escolhas, às vezes, também se fazem por omissão.

11:43 AM  
Blogger Bic Laranja said...

Um direito e um dever. É uma coisa e o seu oposto. Formidável.
Cumpts.

3:59 PM  
Blogger João Campos said...

Então colocamos a questão na semântica.

Os direitos implicam deveres, sim. Mas o facto de eu ter o direito de votar não significa que eu a isso seja obrigado. É a isso que me refiro. Numa sociedade livre, os cidadãos podem votar - mas da mesma forma, podem optar livremente por não o fazer.

Note também que não sou um abstencionista por convicção. Fui nestas eleições por puro acaso - por haver um motivo que me prendeu a Lisboa, e me fez não viajar duzentos e cinquenta quilómetros até à aldeia onde nasci para votar. Não, não é conveniente para mim mudar o meu círculo eleitoral para Lisboa, até porque em seis anos de capital, já vivi em cinco zonas completamente diferentes.

Conforme já escrevi por aqui, não compreendo como o "choque tecnológico" ainda não se lembrou de electrizar as mesas de voto também. Repare, se eu pudesse ir ali à Junta de Freguesia de Alcântara e, mediante a apresentação do meu cartão de eleitor, votar, o Paulo Rangel teria mais um votozinho (note que nem peço voto electrónico, num portal como o das Finanças, onde é possível fazermos o IRS).

No fundo, o problema é esse. No que me toca a mim, claro está.

4:39 PM  
Blogger Darkness Made Flesh said...

"Convinha" que a Ana Gomes morresse para votar.
Once and for all.

Aurea Mediocritas

9:01 PM  

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