21.7.09

Ficção e fantasia.

Harry Potter não é literatura – é pura invenção adolescente, e tenho alguma ternura por J. K Rowling, a autora (por ter sido capaz de inventar aquela galeria de personagens). Como as famílias e ‘a sociedade’ desistiram de dar educação religiosa aos seus filhos, as lendas de Harry Potter, como as de ‘O Senhor dos Anéis’, substituem por um tempo as sagas fundadoras tradicionais – elas são a alusão "ao transcendente" e provam que um mundo sem ele é apenas um deserto sem alegria.

Por Francisco José Viegas, no Correio da Manhã.

Harry Potter não é literatura. O conceito de literatura anda nebuloso hoje em dia. A obra de JK Rowling, para Francisco José Viegas, não é literatura. Poderia perguntar o que seria então literatura - se, para ir a extremos, Miguel Sousa Tavares é literatura. Se Margarida Rebelo Pinto o é. Se Saramago o é. Ou até, vá lá, se FJV o é. Mas vou-me ficar pela "invenção adolescente": podemos considerar obras destinadas essencialmente para crianças (o que, pessoalmente, não acho que Harry Potter seja) como "literatura"? Falo de livros, por exemplo, como os da célebre colecção "Uma Aventura", que há anos fazem parte das primeiras coisas que as crianças portuguesas lêem. Acho a redução do conceito "literatura" a obras ditas "eruditas" um perfeito disparate, para não dizer snobismo.

Tal como me parece disparatado o já antigo preconceito (falta-me melhor palavra, confesso) para com géneros considerados "alternativos", como a fantasia (ou a ficção científica, mas disso já falei muito, creio). Sinto isso no texto de FJV com a alusão a Tolkien, tal como senti num artigo já antigo da Ler sobre os 50 escritores mais influentes. Vai-se a uma livraria normal e a fantasia aparece invariavelmente na secção "Infantil-Juvenil". Há obras que são claramente direccionadas para um público mais juvenil, é verdade. Harry Potter até podia originalmente ser uma delas, mas o tom progressivamente negro que a série vai ganhando começa, na minha opinião, a afastá-la do público mais jovem. O Senhor dos Anéis, por seu lado, jamais será um "livro para jovens". Nem vejo motivo para ser menorizado apenas por ser "fantasia". No limite... toda a ficção é fantasia. O resto é imaginação.

john

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