26.11.09

A gripe (II)

Gente como nós continuará sempre entregue aos bichos, dizes-me. Como nós queres dizer deslocados. Pois é, parece que não temos mesmo alternativa. Isto porque é possível um centro de saúde recusar atendimento - aconteceu mais uma vez. Sim, explicou-me a senhora da recepção do centro de saúde aqui da Ajuda, é possível fazer uma inscrição temporária no centro de saúde, mas essa inscrição não dá direito a atendimento médico: só a vacinação, caso seja necessário. Se quiser atendimento médico, tenho de eu mesmo tomar a iniciativa de mover todo o meu historial clínico de Odemira para onde quer que eu viva em Lisboa. Dito de outra forma, o Cartão do Cidadão revela-se em todo o esplendor da sua inutilidade. Mas então não há atendimento esporádico, como me disseram em São José da última vez? Só aos sábados.

Ou seja, tenho de adoecer a um sábado se quiser atendimento aqui na Ajuda. Um aviso ao meu corpo. Entretanto rendo-me, e assim que tiver tempo moverei todo o meu historial clínico, mais o caralho que o foda, mas continuo a achar que nós não temos um sistema nacional de saúde. Temos uma antecâmara de tortura.

Amiga estrangeira, de um reino civilizado no Norte, não compreende como é possível recusarem atendimento médico. Pergunta se tenho gripe A, e recomenda que compre uma caixa de tamiflu. Digo-lhe que não posso comprar assim, que tenho de ter receita médica. Que atraso de vida, responde-me, aqui qualquer pessoa com sintomas de gripe pode e deve comprar o medicamento. Como disse, a minha querida amiga vive num país civilizado, ou, se quiserem, num país. Não num chiqueiro.

john

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