A mim ninguém me cala!
É o que diz quem nunca tem razão: a mim ninguém me cala. Como aquela rapariga hoje, quando o 742 ficou bloqueado a meio da rua Maria Pia e ela decidiu fazer do motorista saco de pancada verbal - como se o motorista tivesse culpa de haver obras num lado da rua, carros estacionados à lisboeta (ou seja, mal) do outro, e de vir um autocarro em sentido contrário. Porque estou aqui há hora e meia e a Carris nunca cumpre horários. O que até era mentira : quanto muito estaria ali havia uma hora. Mas sejamos generosos, e desconte-se a hipérbole pela histeria.
Não adianta discutir com quem não tem formação, ou, simplesmente, com quem não quer ouvir por já ter as suas verdades todas muito bem arrumadinhas na cabeça. Aquela rapariga devia ter a minha idade (palpite) e da discussão com outros passageiros que defendiam o motorista, fiquei a saber que ia para o trabalho e tinha uma filha. Pormenores irrelevantes: gritava e estrebuchava que não havia direito (como se ela conhecesse outros direitos que não que achava que tinha), que era inadmissível (como se o autocarro pudesse voar sobre os obstáculos). Porque não escreve ao Presidente da República?, perguntou-lhe um senhor que estava mortinho para meter lenha na fogueira. Porque não faz uma revolução, como fez a minha geração, se acha que as coisas não estão bem? Estas pessoas nunca se revoltam. Acusam tudo e todos de fazerem nada - como ela aliás acusou o senhor que educadamente procurava fazê-la ver o ridículo a que se expunha ali. É a única coisa que estas pessoas sabem fazer: gritar e espernear perante o reduzido e acidental auditório que obtém. No caso, foi o 742 da Carris neste final de semana. São pessoas que desconhecem, de facto, o que podem fazer: podem gritar no autocarro porque estamos numa democracia. Pois estamos. Mas elas mesmas desconhecem o que é isso da democracia. Pois podem também, de facto, escrever ao Presidente da República. Como podem fazer petições, militar em partidos e em movimentos de cidadãos. Podem até fundar os seus próprios partidos ou movimentos se reunirem as condições necessárias e que o nosso (pobre) regime prevê. No limite, e com apoio suficiente, até podem, realmente, fazer uma revolução. Mas como naquele famoso sketch, estas pessoas sabem apenas falar. Falar, falar, falar. Gritar. Barafustar. Contra quem não tem culpa e nada pode resolver.
Mas ela tinha razão num ponto. A ela ninguém a cala. Ninguém a pode calar, porque ela não pode ouvir. Está tudo já arrumadinho e pronto a sair quando chega o acesso da histeria. Hoje calhou-lhe um auditório mais interactivo no 742. Infelizmente, não creio que tenha aprendido o que quer que seja com ele.
john
Não adianta discutir com quem não tem formação, ou, simplesmente, com quem não quer ouvir por já ter as suas verdades todas muito bem arrumadinhas na cabeça. Aquela rapariga devia ter a minha idade (palpite) e da discussão com outros passageiros que defendiam o motorista, fiquei a saber que ia para o trabalho e tinha uma filha. Pormenores irrelevantes: gritava e estrebuchava que não havia direito (como se ela conhecesse outros direitos que não que achava que tinha), que era inadmissível (como se o autocarro pudesse voar sobre os obstáculos). Porque não escreve ao Presidente da República?, perguntou-lhe um senhor que estava mortinho para meter lenha na fogueira. Porque não faz uma revolução, como fez a minha geração, se acha que as coisas não estão bem? Estas pessoas nunca se revoltam. Acusam tudo e todos de fazerem nada - como ela aliás acusou o senhor que educadamente procurava fazê-la ver o ridículo a que se expunha ali. É a única coisa que estas pessoas sabem fazer: gritar e espernear perante o reduzido e acidental auditório que obtém. No caso, foi o 742 da Carris neste final de semana. São pessoas que desconhecem, de facto, o que podem fazer: podem gritar no autocarro porque estamos numa democracia. Pois estamos. Mas elas mesmas desconhecem o que é isso da democracia. Pois podem também, de facto, escrever ao Presidente da República. Como podem fazer petições, militar em partidos e em movimentos de cidadãos. Podem até fundar os seus próprios partidos ou movimentos se reunirem as condições necessárias e que o nosso (pobre) regime prevê. No limite, e com apoio suficiente, até podem, realmente, fazer uma revolução. Mas como naquele famoso sketch, estas pessoas sabem apenas falar. Falar, falar, falar. Gritar. Barafustar. Contra quem não tem culpa e nada pode resolver.
Mas ela tinha razão num ponto. A ela ninguém a cala. Ninguém a pode calar, porque ela não pode ouvir. Está tudo já arrumadinho e pronto a sair quando chega o acesso da histeria. Hoje calhou-lhe um auditório mais interactivo no 742. Infelizmente, não creio que tenha aprendido o que quer que seja com ele.
john









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