4.3.10

O terço

Uma das modas mais azeiteiras que conheço - perdoem a expressão - é a moda de usar um terço (um rosário) ao pescoço, como se fosse um colar. Pelos vistos, a moda dá para rapaz e rapariga, o que apenas não piora a coisa porque, enfim, a coisa já não pode ser pior. A sério. Usar um terço ao pescoço é muito mau, quase tão mau como usar as calças abaixo do cu, ou como usar botas de borracha (sim, eu sei que virou moda feminina, mas não percebo: quando eu era miúdo quem usava botas de borracha - qual galochas - eram os pastores e os agricultores; imagino o que os meninos urbanos não riam quando viam o Ti Manel com umas calçadas). Até porque, e aposto 100 euros nisto, quem usa um terço ao pescoço não é, em 95 por cento dos casos, católico; e em 99 por cento dos casos* nem sabe rezar um Pai Nosso ou uma Avé Maria, quanto mais um terço completo. Se me perguntarem se eu sei, eu digo que sim, até porque é verdade - sem vergonha (porque havia de a ter?), já tive os meus anos religiosos, e muito sinceramente, às vezes até tenho saudades desse tempo. Não sou religioso, deixei de o ser há imenso tempo; não sei se sou crente, nem gasto tempo a pensar nisso. Mas gosto de pessoas religiosas, sobretudo nesta época em que ser ateu, e ateu militante, é chique. As pessoas religiosas (cristãs) normalmente não perguntam a um ateu "porque é que não acredita?" Mas ainda que perguntem: a primeira resposta chega. Invariavelmente. Isto para um dos ateus militantes da moda é inconcebível: se alguém se afirma como religioso, perguntam porquê dez vezes, e tratam a pessoa como se ela fosse atrasada mental. É pena. As pessoas mais positivas - felizes, mesmo - que conheci eram profundamente religiosas, tinham algures uma fonte de força que lhes valia quando tudo o resto desabava. Mas mesmo as pessoas mais religiosas que conheço não usam terços ao pescoço.

john

*reservo sempre um por cento à improbabilidade absoluta.

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