A independência #4
João,
tens razão quando dizes que o objecto artístico tem sempre uma dimensão interpretativa discutível. E Pedro Cabrita Reis tem isso, de facto. Aliás, é na diversidade de interpretações que se cria um objecto dito artístico. A linha é muito ténue e eu acho que muito do que Pedro Cabrita Reis produz é, de facto (aqui está a negação do acordo ortográfico), arte. Por muito aparentemente simplista e, um-tanto-ou-quanto, surrealista que seja. Neste sentido, julgo indispensável deixar o criador solto de interpretações mais ou menos difusas e/ou impressionistas. Pensemos em Mondrian, João César Monteiro, Luiz Pacheco etc.
No entanto, temos um ponto de divergência total. A cultura não deve pagar-se a si própria. No dia em que o fizer, deixará de ser cultura e passará a ser lixo-comercial - não são necessariamente sinónimos. Nesse dia teremos os teatros cheios de My Fair Ladies e Gaiolas das Loucas, que levarão à loucura qualquer pessoa com o mínimo de noção do que é cultura. A política cultural tem que ser encarada como isso mesmo: Política. E nesse sentido não é razoável pensar que: ou se paga a si próprio ou então não deve ser subvencionado. Para mim esta ideia está profundamente errada. Como já disse, o orçamento que o MC distribui pelos Teatros Nacionais, Regionais, pelo cinema, pelo apoio à edição de novos autores e novos criadores musicais faz parte das funções de soberania do Estado - basta ler o artigo 79º da Constituição da República. Tal como é o ensino básico, secundário e superior. Até porque, como diz a lei que regula os Teatros Nacionais (agora EPEs) por exemplo, os teatros têm que garantir várias funções de formação de públicos. E esta função tem sido razoavelmente cumprida, basta olhar para o sucesso que o Teatro Viriato conseguiu numa cidade como Viseu. Para não falar do sucesso nacional e internacional do Teatro Nacional S. João como factor de afirmação cultural de uma cidade e de uma região tão carente de cultura como é o Porto. Os Teatros Nacionais têm, ainda, a função de desenvolvimento de um sem número de facetas técnico-artísticas que nunca seriam desenvolvidas se apenas se olhasse para a auto-sustentabilidade das representações. Falar de uma peça como "Turismo Infinito" ou "Castro" ambas Ricardo Pais/TNSJ e pensar que as receitas de bilheteira poderiam cobrir o custo das produções é tão utópico como pensar que conseguiremos pagar os custos da Universidade de Lisboa com as propinas dos alunos. E ninguém questiona o orçamento das Universidades, e bem. Para mim, é este precisamente o ponto. A verdadeira criação artística nunca será rentável porque, precisamente por tentar criar objectos cénicos a priori desconhecidos do público e tomados por complexos por este - representando repertórios clássicos, modernos e contemporâneos nas suas diversas variantes, os grandes clássicos e a defesa da Língua Portuguesa falada, como factor de afirmação cultural no exterior e, até, de exportação (volto a falar a este propósito do TNSJ, por exemplo) -, está aí a cumprir o seu papel de criação de públicos que tem que ser encarada como uma função basilar de um estado de direito democrático.
jtf









2 Comments:
Tens noção de que temos aqui material para animar este blogue até ao final do Verão, não tens? :)
Tenho e estou a gostar disso. Acho que é a maior sucessão de posts que este blogue já teve. Grande abraço, John
Post a Comment
<< Home