8.6.10

Os pequenos sacanas

Gosto dos pequenos sacanas que este país produz e reproduz a uma velocidade irreproduzível pelo mais apto dos coelhos. Os pequenos sacanas são, como o nome indica, indivíduos muito pequeninos, apesar de por vezes até terem uma estatura considerável. Pequeninos de carácter, portanto. Ninguém sabe bem do que vivem - hoje em dia ninguém tem trabalho ou sequer emprego, e os pequenos sacanas estão sempre envolvidos em várias "actividades". Normalmente em lugares elevados. Eles gostam disso, os pequenos sacanas. Gostam de exibir o título, igualmente pequenino, debaixo do seu nome sempre que enviam uma mensagem de correio electrónico. Gostam do correio electrónico, os nossos pequenos sacanas. Permite resolver tudo sem grande maçada, sem olhar nos olhos a pessoa com quem falam, o que é muito conveniente: o excesso de bazófia não deixou muito espaço para a coragem. Escrevem longamente, com retórica esforçada e dicionário de sinónimos ao lado. O conteúdo é inexistente. É inútil, pensam eles, de sorriso sacana nos lábios, enquando processam no Outlook as vacuidades com que ganham a vida. E no fim, debaixo do nome, o títulozinho. Já não estamos na época dos condes, dos barões e dos duques, aristocráticos e por isso de alguma grandeza. Coisa velha, pensam os pequenos sacanas. Gostam mais de "administrador", "director" ou, melhor ainda, um título em sigla cujo significado ninguém conhece, ou um estrageirismo - normalmente do inglês, pois um título em inglês é sempre outra coisa.
Mas mais que dos títulos ou da vacuidade electrónica, os pequenos sacanas gostam de ter subordinados, outras pessoas em quem mandar, e que tenham obrigatoriamente de os ouvir. Falam como escrevem - longamente e sem conteúdo, com muitas adversativas, e a justificar as suas sempre boas intenções a cada três frases. Não dão ordens, pois são superiores hierárquicos modernos; dão "sugestões", fazem "pedidos". E quando esbarram numa recusa, têm sempre uma frasezinha, sarcástica e assassina, pronta a usar. Nunca reconhecem os seus erros - os pequenos sacanas são também mestres na arte de delegar tarefas. E responsabilidades. Sobretudo responsabilidades. Sendo necessariamente incompetentes, cometem erros. Muitos erros. Mas nunca a responsabilidade é deles. Há sempre alguém que sirva de bode expiatório. Há sempre alguém para culpar. E para queimar - um pequeno sacana que se preze tem sempre consigo um garrafão de gasolina e uma caixa de fósforos, não vá o diabo tecê-las.
E para melhor avaliar as situações em que se envolve, o pequeno sacana recorre à burocracia. Sim, o pequeno sacana é criatura burocrática: não vive sem o relatóriozinho, sem o documento, sem o "mail" - seja para disparar em alguma direcção, seja para simular um trabalho que nunca faz. Tem é de ser "tudo por escrito".
Disse no início do texto que gosto dos pequenos sacanas, mas a verdade é que os abomino como abomino muito poucas coisas. A simples visão de um deles enoja-me. Infelizmente, quis o destino que estivesse rodeado deles, de pequenos sacanas, chicos-espertos de trazer por casa, caricaturas incompetentes a quem eu não daria emprego nem a esfregar o chão da minha cozinha. Infelizmente, num país onde a mediocridade é a medida, os pequenos sacanas são como as ervas daninhas. São até piores. As ervas daninhas sempre se podem arrancar.

john

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