14.10.10

Pouca-terra, pouca-terra

O debate vai bom, estou a ver. Sem querer entrar em grandes detalhes, até porque vocês estão já muito longe do meu conhecimento e do meu senso-comum, aproveito apenas para meter a colherada num tema lateral:

João, isto na opinião de um leigo sem conhecimento da área concreta (eu) o TGV - ou melhor, a ferrovia de alta velocidade - poderá ser rentável para mercadorias se o porto de Sines estiver a funcionar em pleno. O transporte de passageiros de TGV, no nosso caso, não deverá ser particularmente relevante. Repara: hoje em dia chegas mais rapidamente a Madrid de avião, com preços já bastante convidativos mesmo se optares por companhias aéreas "de bandeira". Se fores para low-costs, nem há qualquer hipótese de competição - há promoções em que ir de avião de Lisboa a Madrid de avião é mais barato do que ir de Lisboa a Faro no Alfa Pendular (e não, ao contrário do que disse o Ministro das Obras Públicas num momento de comédia rasca, Lisboa não será a praia de Madrid). Para chegarmos ao resto da Europa, o avião será sempre mais rápido e cómodo. Por exemplo, duvido que muita gente queira ir de Lisboa (do Poceirão, vá) a Berlim de TGV: se for para chegar lá rapidamente, o avião chega lá mais depressa (check-in incluído), e provavelmente com menos custos; se for para fazer uma viagem ao espírito inter-rail, então a malta quer é um comboio do estilo do Sud, não uma máquina que parece acabadinha de sair da produção de um blockbuster de ficção científica.

O TGV é muito interessante na Europa Central, para ligar países geograficamente próximos - França, Bélgica, Holanda, Alemanha. Deve ser excelente ir de Paris a Bruxelas em menos de nada, sem perder tempo a fazer check-in e a ser revistado. Na periferia, parece-me a mim que as suas vantagens se esbatem. Os países escandinavos, por exemplo (também são periféricos, nós é que nos esquecemos disso), prescindiram do TGV, e convém lembrar que países com as dimensões da Noruega e da Suécia talvez pudessem beneficiar muito dele (excepto quando é necessário limpar a neve dos carris, suponho). Mas, pelo menos na Noruega, e tanto quanto sei, a aposta foi no sentido dos aeroportos regionais. Nem tenho a certeza de haver ligação de alta velocidade entre a Dinamarca/Suécia e a Alemanha.

Pessoalmente, e como cliente habitual da CP, e como contribuinte, gostaria mais de ver investimentos na ferrovia convencional, fornecendo ligações entre as principais cidades, renovando/melhorando as ligações já existentes, e, acima de tudo, fornecendo um serviço realmente bom aos passageiros - e a qualidade de serviço da CP tem vindo a cair a olhos vistos. Para "consumo interno", não precisamos do TGV para coisa alguma - precisamos, sim, de uma linha na qual o Alfa se possa "esticar" à vontade, deixando os serviços de Intercidades e de Regional para quem tem menos pressa - aliás, o serviço Regional tem vindo a ser massacrado pela CP, o que considero muito grave. Há sete anos, ainda sem a ligação ferroviária da ponte à linha do Sul concluída, eu podia viajar do Barreiro até à minha aldeia - ou até Vila Real de Santo António - de comboio. Hoje, com comboios a passar na Ponte 25 de Abril, já não o posso fazer, o que é ridículo. Também por isto não entendo a obsessão socrática pelo TGV - andamos há anos a destruir com empenho a ferrovia, dando lugar a auto-estradas e privilegiando o transporte rodoviário; e agora querem gastar milhões a promover um comboio provavelmente ineficiente para fazer menos bem o que o transporte aéreo já cumpre bastante bem? Não me lixem.

john

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