14.12.10

Demagogia é uma palavra bonita & O preconceito cultural II

João, a custo, forçar-me-ei a discordar de ti:

#1 Ao contrário de Jorge Miranda (e nunca percebi por que razão existe um "pai" da Constituição. Se era para ter um "pai", como que apropriando-a - à semelhança do que faz Filomena Mónica com o Eça ou o Pulido Valente com a História Portuquesa do séc. XIX - então que se chamasse Constituição-Jorge-Miranda) entendo a medida de compensação salarial como vergonhosamente constitucional. Em primeiro lugar, porque é Política. E a política é, e sempre foi, a escolha de recursos escassos face a necessidades ilimitadas. Carlos César escolheu afectar os recursos que existem às necessidades ilimitadas que tem. Escolheu - e bem - não descer salários, em vez de afectar esses mesmos recursos a obra pública. E a Política é isso mesmo. As escolhas. Ora, se no passado quisemos chamar Regiões Autónomas à Madeira e aos Açores, por certas razões, temos que assumir o significado da sua autonomia para tudo. Ser autónomo não é mera denominação. Autonomia, neste contexto, significa ter um poder legislativo e executivo autónomos. É precisamente a exercê-lo que está César. Mais, tal como eu achava justo, no Continente: (i) cancelar obra pública; (ii) tributar dividendos antecipados de empresas; (iii) etc; como forma de evitar cortes salariais em massa - com todas as consequências sociais -, sou forçado a achar o mesmo para os Açores. Com a diferença que Carlos César o fez de factum. Ao passo que o Governo da República não o pode fazer por razões de aritmética parlamentar e outras.

#2 João, a CRP dispõe que «O Presidente da República representa a República Portuguesa, garante a independência nacional, a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas e é, por inerência, Comandante Supremo das Forças Armadas». Ora, no meu entender, no espírito do disposto está a função representativa da Pátria, e não apenas do Povo. Representação das pessoas, dos seus valores, da sua História, do Passado e do Futuro, do Povo que foi e daquele que ainda será. Não vejo que seja possível representar condignamente a História de um Povo sem que se represente a sua Cultura. Clássica, Moderna e Contemporânea. Os factores de afirmação das Nações na História são os que permitem que estas se distingam umas das outras. E isso é a Cultura. Saber quantos cantos têm «Os Lusíadas» insere-se nesta função de representação e, sendo o mínimo exigível ao cidadão médio, por maioria de razão é indispensável àquele que foi escolhido para nos/os representar.
Compreendo quando falas dessa visão snob, contudo aqui entendo a "Cultura" como a forma como os Povos se afirmam como tal perante os outros. Não é de Pollock ou de João César Monteiro que estou a falar. Apesar de também isso dar uma boa conversa.

jtf

3 Comments:

Blogger João Campos said...

Boa réplica, João. Quando recuperar o uso da minha mão direita tentarei dar uma réplica adequada :)

12:46 AM  
Blogger João Teago Figueiredo said...

Obrigado, Camarada. Estás lesionado, é?
Grande abraço

10:24 AM  
Anonymous john said...

Sim, um pouco. No fim-de-semana já devo estar apto para as minhas tradicionais paredes de texto.

Abraço

12:58 AM  

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