11.3.11

Espero que esteja bom tempo no Alentejo

Algumas conversas com amigos sobre a manifestação da "geração à rasca", marcada para o próximo dia 12, quase fizeram de mim um proscrito. Isto porque me limitei a afirmar que não tencionava (nem tenciono) ir à dita manifestação, e mais: que considerava (e considero) toda aquela ideia um disparate. O que me lembrei de dizer. Entre palavras ácidas, mudanças ressentidas de assunto e olhares atravessados, a coisa ainda só não deu para o insulto, mas se continuar a falar disto, julgo que até Sábado conseguirei que pelo menos um amigo me mande à merda. E apenas por me declarar contra o protesto (sem qualquer intenção de o proibir; cada um faz o que bem entender), e de justificar essa minha posição.

E a justificação é simples: oponho-me ao protesto por considerar que ele é absolutamente inconsequente. Em teoria, concordo que os recibos verdes são uma praga, que os estágios não remunerados são uma vergonha, que o desemprego jovem é um problema gravíssimo e que, enfim, o país está enfiado num buraco bem fundo. Tudo isso é verdade. Mas se a ideia é manifestarmo-nos para inverter esta situação, então convém que se tenha uma ideia de quais seriam as soluções. Qual é a alternativa a esta situação, o que fazer para a inverter, para que os jovens possam ter uma vida mais digna. E é precisamente quando pergunto isto aos meus amigos que a conversa azeda: ninguém tem uma resposta a isto. Um amigo diz-me que isso virá depois, que para já o importante é "fazer barulho". Mas fazer barulho, por si só, é insignificante - e inconsequente. Imaginemos que se juntam 100 mil pessoas na Avenida da Liberdade (a sério, façamos o esforço), que fazem muito barulho, e que o poder político decide ouvi-las: vão repetir a ladainha do "está tudo mal", até ouvirem a pergunta "e o que propõem?" Nada, evidentemente. Não estão lá para isso - apenas para protestar.

A sensação com que fico é só uma: de facto, esta geração (à boleia de uma música) ganhou subitamente a consciência de que está tudo mal, mas não faz ideia de como resolver o(s) problema(s). Por isso, manifesta-se sem uma ideia concreta, sem um projecto, sem um propósito que não "fazer barulho". Ou, numa perspectiva mais cínica: manifesta-se para que os outros, os que lá estão (leia-se: o Estado), enfim, alguém, lhes resolva os problemas e lhes garanta uma "vida boa". Dito de outra maneira, querem emprego bem pago para o resto da vida, ou como funcionários públicos, ou com o Estado a obrigar os privados a contratar. Peço desculpa pela simplificação, mas a verdade é que não me ocorre mais nenhuma alternativa.

Pelo caminho esquecem-se de alguns detalhes. Por exemplo, esquecem-se de que os estágios não remunerados apenas foram possíveis porque sempre houve gente disposta a aceitá-los (sim, também aceitei um - já não restam alternativas). Curiosamente, a ninguém ocorreu essa pequena forma de rebelião: não aceitar tal oferta. Se todos o tivéssemos feito, a questão dos estágios provavelmente não seria colocada, porque nunca teria sido opção para a empresas ou para o Estado (que nesta história de estágios e falsos recibos verdes não é exactamente virgem). Ou esquecem-se de que - e contra mim falo - ter um curso superior não tem de significar um emprego, e que se há cursos que ainda garantem emprego, muitos não o conseguem garantir (sim, devemos seguir as vocações, e se um aluno quer mesmo seguir Relações Internacionais ou Jornalismo, deverá fazê-lo - mas que o faça sabendo onde se está a meter, e não com a certeza de que alguém o safará após a queima das fitas). Uma amiga diz-me que eu não entendo a situação por não ser precário. É uma acusação clássica, muito ao estilo do lendário "você não sabe o que é o sorriso de uma criança", mas neste caso é também uma acusação completamente infundada. Também já fiz estágios não-remunerados, também já trabalhei a recibos verdes, já abdiquei de um emprego que me realizava quase por completo precisamente por não me dar condições para lá continuar, e actualmente trabalho não com um contrato vitalício, mas a termo certo - e não é exaxtamente na minha área de estudos. É melhor do que aquilo que muita gente tem? Sem dúvida. É perfeito? Longe disso. Mas, para já, serve.

Acho muito bem que se lute para melhorar a vida, e, se as coisas estão erradas, então que se proteste. Mas que se seja consequente no protesto, e que se aponte um caminho. Bom ou mau, mas um caminho. É que a Avenida da Liberdade nem é tão longa quanto isso, e do Marquês aos Restauradores é um pulinho a pé. E lá chegados, faz-se o quê? Fica-se à espera de alguma coisa, com a satisfação de "missão cumprida", de "fizemos barulho, fizemo-nos ouvir"? É pouco. Muito pouco.

john

5 Comments:

Blogger João Teago Figueiredo said...

concordo com tudo, João. se tivesse paciência para escrever sobre este assunto, escreveria algo semelhante. apenas não acho - e neste ponto não estou certo que discordes de mim - que não é exigível a uma música apontar soluções (ainda por cima tão complexas). ao invés, à manifestação/movimentos/raio-que-os-parta, é-o.

jtf

9:26 AM  
Blogger Lourenço Cordeiro said...

O Pedro Lomba explicou bem a coisa num Expresso da Meia-Noite de há tempos: falta a esta «geração» - ou «manifestantes» - inscrição política; falta-lhes explicar o que querem porque aquilo que parece que querem é demasiado mau para ser verdade.

10:45 AM  
Anonymous Anonymous said...

Obrigada João. Já não me sinto só na minha opinião.
Maria Lopes

4:39 PM  
Blogger João Teago Figueiredo said...

p.s.: no meu comentário, é favor ignorar o último «não».

4:52 PM  
Anonymous john said...

João: o que me surpreende é que tenha sido necessária a música para toda a gente cair em si (com o teu comentário, estou inteiramente de acordo).

Lourenço: é mesmo essa a ideia que passam. O que querem parece ser demasiado mau. Mas já nem digo nada - quando digo isso a alguém sou imediatamente fulminado.

Maria: está muito longe de estar sozinha nessa opinião.

Aos três: bom fim-de-semana.

6:24 PM  

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