19.2.08

é da praxe...

...dizer mal das praxes. o assunto tem vindo a ser falado, a espaços, na blogosfera. tradição retrógada, dizem uns. cultura de violência, dizem outros. citam-se os casos polémicos, que colocaram em causa a integridade física ou psicológica de alguns caloiros - casos que acabaram em tribunal, como deve ser num estado de direito.
antes de prosseguir, já que a prosa será longa, gostaria de desafiar os camaradas de blog a falarem sobre o assunto e sobre a sua experiência pessoal e opiniões.
pessoalmente: fui praxado no meu primeiro ano de universidade, e integrei a comissão de praxes da escola durante dois anos. sou, portanto, suspeito; mas antes de mais, importa esclarecer que fui praxado voluntariamente, e que ninguém praxado por mim o foi contra a sua vontade (apesar de confessar que convenci alguns mais relutantes - que posteriormente até me agradeceram). enquanto caloiro, nunca qualquer praxe atentou contra a minha integridade física ou psicológica, tal como nenhuma actividade foi sentida por mim como humilhante. da mesma forma, nenhuma praxe ordenada por mim atentou contra os caloiros de alguma forma - creio. nunca recebi uma queixa, durante ou após a "semana de praxe". o objectivo, meu e dos meus colegas de comissão, sempre passou pela "integração" dos novos alunos. podem dizer-me, com toda a legitimidade, que há outras formas de integrar quem chega ao mundo universitário. creio que sim, que deve haver. a minha, porém, resultou.
com isto, atenção, não pretendo de alguma forma dar a entender que todas as praxes são boas. porque não são. já me contaram muitas praxes às quais jamais me submeteria. já li sobre praxes violentas, estúpidas, retrógadas. mas convém lembrar um ponto importante: só é praxado quem quer. a praxe é voluntária, e creio que a consequência principal de alguém se recusar a ser praxado reside na impossibilidade de vir a praxar - o que faz todo o sentido. colocava-se em tempos a questão da integração, do afastamento dos colegas, das histórias de ostracização dos anti-praxes. esse fenómeno verifica-se, efectivamente, mas de uma forma indirecta, e diria até involuntária: se a maior parte dos novos alunos se submete à praxe, geram-se de forma mais rápida e fácil (é farra, afinal) ligações entre eles - e essas ligações são transpostas para a sala de aula, para as turmas, quando a farra acaba e o estudo começa (ou deve começar). e desse ponto de vista, os alunos anti-praxe saem efectivamente prejudicados, porque não conhecem os colegas ou porque há grupos já formados. mas não é líquido que assim seja - vai depender de cada aluno, individualmente.
mas a praxe, torno a lembrar, é sempre voluntária - tanto no momento em que se decide ser praxado ou não, como no momento de cada actividade individual de praxe. caso seja coagida, ou caso tenha consequências mais graves para o caloiro, há o recurso às instâncias de direito - à direcção da escola, que poderá sancionar o comportamento dos responsáveis; ou aos tribunais, como já aconteceu várias vezes. e como tem de acontecer. não me parece, portanto, justo da parte dos comentadores que, sempre que se lembram de falar do assunto, peguem nos mesmos casos; ou que seja justo da parte dos meios de comunicação social só falarem das praxes quando, para utilizar a designação correcta, estas dão merda (literalmente ou não). talvez não fosse má ideia darem um passeio pelas universidades e institutos politécnicos do país e falarem com os caloiros, e com aqueles que em tempos foram caloiros. talvez fosse interessante procurar compreender porque jovens adultos, com idade para pensarem pela sua cabeça, se submetem a estes rituais - e se foram obrigados, se estão a gostar ou se gostaram do que viveram. talvez fosse engraçado, para variar, falar de praxes que correm bem. é que é sempre politicamente correcto falar da barbárie que são as praxes, mas não me recordo de jamais terem sido ouvidos os seus principais intervenientes: os caloiros.

jc

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