Bairro Alto
Na sexta-feira houve um protesto no Bairro Alto. Dezenas (centenas?) de pessoas de apito na boca decidiram fazer uma barulheira tremenda a partir das duas da manhã, hora a que todos os estabelecimentos comerciais (leia-se bares) têm agora de encerrar. É o novo Bairro Alto, com mais polícia e segurança (o que acho bem), menos riscos nas paredes (o que acho muito bem) e com um horário de funcionamento absolutamente ridículo. Fechar os bares do Bairro às duas da manhã é um perfeito disparate. Dizem-me que não faz diferença, porque "o bairro não é sítio para ir e estar lá, é mais sítio para se estar enquanto não se vai para outro lado". Até posso dizer que sim, que realmente o Bairro cumpre essa função, e recordar as noites em que às quatro da manhã se descia a Rua do Alecrim rumo ao MusicBox, por exemplo (ou, mais frequentemente, às roulottes de cachorros e pitas de Santos, enquanto o comboio não acorda). Mas duas da manhã é demasiado cedo para o que quer que seja, e nem toda a gente tem paciência para o Lux ou para as discotecas pseudo-chiques das docas de Alcântara (em breve a funcionar em contentores). Nos últimos cinco anos, o Bairro Alto nunca foi um sítio de passagem, mas um sítio de destino - onde se encontram amigos e inimigos, onde se conversa na rua, onde se senta num bar a conversar e a ouvir rock, techno ou pimba brasileiro, e onde às duas e meia se ruma à padaria da Rua da Rosa, aquela perto da farmácia, para comer um croissant com chocolate acabadinho de sair do forno. E se desce a rua, a comer, para beber mais uma ou duas cervejas e ir para casa. Passo bem sem charros nas ruas, gente a mijar ou a vomitar em cada esquina, fachadas completamente vandalizadas (chamar aos riscos do Bairro "grafitti" é uma estupidez) ,ou o receio de naquela rua ver reluzir a lâmina de uma navalha. Mas não estaria disposto a trocar isso por ver as minhas noites acabarem às duas da manhã.
Na sexta, a minha acabou às três e meia. O bar onde estava - um espaço pequenino, vagamente familiar, fora do circuito habitual onde me habituei a ir - permaneceu semi-aberto, indiferente aos assobios. Foi encerrado naquela noite pela polícia. Quem vai ganhar com isto nem são os moradores do Bairro, mas as discotecas da moda.
jc









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