Deveria escrever aqui qualquer coisa sobre o tema do momento
que, como se sabe, deixou de ser o fripór, a crise económica, o desemprego, o bêpêéne ou mesmo o Benfica. E o tema do momento é para mim irrelevante. Sim, é para mim irrelevante que os homossexuais se possam casar. Idealmente, o estado não meteria "a colher" nestas matérias, cabendo aos indivíduos na plena posse das suas capacidades mentais decidir conscientemente o tipo de união que quisessem ter. Do ponto de vista fiscal, seria simples: eventuais benefícios fiscais seriam atribuídos não em função da "união", mas em função dos filhos, biológicos ou adoptados.
De resto, esta questão começa a ganhar para mim os contornos da questão do aborto: os defensores do "sim" insistiram rotular os defensores do "não" de retrógados, bárbaros, e outros apelidos mais ou menos sinónimos. Com a questão do casamento homossexual surge logo o bom defensor do "sim" armado com a espada da homofobia, e com uma mão-cheia de "retrógados" e "atrasados" para distribuir mais ou menos livremente. Como é evidente, a partir do momento em que uma discussão - qualquer discussão - entra nestes termos, é impossível retirar dela o que quer que seja. A verdade é que - tal como na história do aborto - ambos os lados terão certamente óptimos argumentos que se perderão com o ruído. Ou seja, o debate no espaço público será sobre coisa nenhuma.
O que, de resto, foi visível no último Prós e Contras, programa a que habitualmente não assisto mas ao qual dei ontem uma espreitadela, devido à promessa de um amigo de que "me iria divertir". Fui claramente enganado: contrariamente à opinião de Fátima Campos Ferreira, o debate foi tudo menos "elevado", apesar de algumas boas prestações (do que vi, destaco pela positiva Miguel Vale de Almeida). E a prova óbvia da mediocridade (bonito eufemismo, este) do "debate" nem foi Fernanda Câncio (que, no entanto, ajuda sempre), mas sim a jurista Isabel Moreira.
Respondendo à pergunta deixada pelo Lourenço aqui, sim, Isabel Moreira é "gira". Bastante, até - dava para a capa de qualquer revista masculina. Mas revelou-se completamente incapaz de conseguir articular duas ideias, dois pensamentos. Algumas das suas intervenções foram absolutamente disparatadas - a final, sobre a tragédia dos jovens homossexuais que se suicidam, foi um momento televisivo particularmente trágico. A maioria das intervenções da senhora foi de uma má educação gritante e despropositada, sobretudo contra Eduardo Nogueira Pinto. Dizer - ou antes, gritar, de dedo em riste - que o constitucionalista Jorge Miranda (?) estava "sozinho numa ilha deserta", e perguntar ao Eduardo Nogueira Pinto, falando por cima, se "não queria juntar-se a ele" ou "ir buscá-lo de barco" merecia, no mínimo, um convite para ir à merda. Destaque-se por aqui a paciência do cavalheiro, perante a fúria da senhora. Eu duvido que a tivesse, naquela situação. Mas fica a dúvida: como é que uma pessoa com um discurso completamente desarticulado e uma manifesta incapacidade de seguir uma linha de raciocínio se licenciou em Direito?
A presença de um padre católico no debate foi um golpe muito rasteiro também. Foi evidente que o senhor esteve lá apenas para servir de alvo (apesar de a sua prestação me ter parecido positiva também). A Igreja não tem nada que ver com este tema. O casamento civil é matéria da sociedade civil, do Estado - não da Igreja. Esta tem o seu sacramento próprio - o matrimónio - e administra tal sacramento aos seus fiéis, impondo para isso as regras que entender. A sua posição sobre a matéria é para todos os efeitos irrelevante.
De resto, a reintrodução do tema é uma manobra eleitoral que está a instrumentalizar por completo os homossexuais. José Sócrates, secretário-geral do PS, assume o tema como bandeira da sua moção, quando José Sócrates, primeiro-ministro deste país, rejeitou liminarmente o debate sobre o tema há pouco mais de um par de meses. É uma cortina de fumo, e issoo repugna-me. E não compreendo como os homossexuais - que têm, evidentemente, todo o direito a não ser discriminados - se deixam usar desta maneira.
Para terminar, peço apenas uma coisa: por favor, não referendem isto. Votem na Assembleia, decidam com moeda ao ar nos Passos Perdidos, peçam à Marisa Cruz para retirar uma bolinha da tômbola. Mas não referendem: isso seria repetir a palhaçada do referendo do aborto, que foi sendo repetido até o "resultado certo" sair. E, de resto, eu tenho de votar lá na aldeia, e não me está nada a apetecer fazer duzentos e cinquenta quilómetros para desenhar um manguito no boletim, ou votar em branco. Já me basta, em princípio, ir fazer isso nas eleições legislativas.
john
De resto, esta questão começa a ganhar para mim os contornos da questão do aborto: os defensores do "sim" insistiram rotular os defensores do "não" de retrógados, bárbaros, e outros apelidos mais ou menos sinónimos. Com a questão do casamento homossexual surge logo o bom defensor do "sim" armado com a espada da homofobia, e com uma mão-cheia de "retrógados" e "atrasados" para distribuir mais ou menos livremente. Como é evidente, a partir do momento em que uma discussão - qualquer discussão - entra nestes termos, é impossível retirar dela o que quer que seja. A verdade é que - tal como na história do aborto - ambos os lados terão certamente óptimos argumentos que se perderão com o ruído. Ou seja, o debate no espaço público será sobre coisa nenhuma.
O que, de resto, foi visível no último Prós e Contras, programa a que habitualmente não assisto mas ao qual dei ontem uma espreitadela, devido à promessa de um amigo de que "me iria divertir". Fui claramente enganado: contrariamente à opinião de Fátima Campos Ferreira, o debate foi tudo menos "elevado", apesar de algumas boas prestações (do que vi, destaco pela positiva Miguel Vale de Almeida). E a prova óbvia da mediocridade (bonito eufemismo, este) do "debate" nem foi Fernanda Câncio (que, no entanto, ajuda sempre), mas sim a jurista Isabel Moreira.
Respondendo à pergunta deixada pelo Lourenço aqui, sim, Isabel Moreira é "gira". Bastante, até - dava para a capa de qualquer revista masculina. Mas revelou-se completamente incapaz de conseguir articular duas ideias, dois pensamentos. Algumas das suas intervenções foram absolutamente disparatadas - a final, sobre a tragédia dos jovens homossexuais que se suicidam, foi um momento televisivo particularmente trágico. A maioria das intervenções da senhora foi de uma má educação gritante e despropositada, sobretudo contra Eduardo Nogueira Pinto. Dizer - ou antes, gritar, de dedo em riste - que o constitucionalista Jorge Miranda (?) estava "sozinho numa ilha deserta", e perguntar ao Eduardo Nogueira Pinto, falando por cima, se "não queria juntar-se a ele" ou "ir buscá-lo de barco" merecia, no mínimo, um convite para ir à merda. Destaque-se por aqui a paciência do cavalheiro, perante a fúria da senhora. Eu duvido que a tivesse, naquela situação. Mas fica a dúvida: como é que uma pessoa com um discurso completamente desarticulado e uma manifesta incapacidade de seguir uma linha de raciocínio se licenciou em Direito?
A presença de um padre católico no debate foi um golpe muito rasteiro também. Foi evidente que o senhor esteve lá apenas para servir de alvo (apesar de a sua prestação me ter parecido positiva também). A Igreja não tem nada que ver com este tema. O casamento civil é matéria da sociedade civil, do Estado - não da Igreja. Esta tem o seu sacramento próprio - o matrimónio - e administra tal sacramento aos seus fiéis, impondo para isso as regras que entender. A sua posição sobre a matéria é para todos os efeitos irrelevante.
De resto, a reintrodução do tema é uma manobra eleitoral que está a instrumentalizar por completo os homossexuais. José Sócrates, secretário-geral do PS, assume o tema como bandeira da sua moção, quando José Sócrates, primeiro-ministro deste país, rejeitou liminarmente o debate sobre o tema há pouco mais de um par de meses. É uma cortina de fumo, e issoo repugna-me. E não compreendo como os homossexuais - que têm, evidentemente, todo o direito a não ser discriminados - se deixam usar desta maneira.
Para terminar, peço apenas uma coisa: por favor, não referendem isto. Votem na Assembleia, decidam com moeda ao ar nos Passos Perdidos, peçam à Marisa Cruz para retirar uma bolinha da tômbola. Mas não referendem: isso seria repetir a palhaçada do referendo do aborto, que foi sendo repetido até o "resultado certo" sair. E, de resto, eu tenho de votar lá na aldeia, e não me está nada a apetecer fazer duzentos e cinquenta quilómetros para desenhar um manguito no boletim, ou votar em branco. Já me basta, em princípio, ir fazer isso nas eleições legislativas.
john









2 Comments:
epah assino por baixo cada palavra! :) by the way where the hell have you been?
Quando houver tempinho, mi liga vai!
Queres tu dizer, quando eu tiver saldo no telemóvel.... *
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