E o copo do primeiro-ministro, está meio cheio ou meio vazio?
Via Paulo Pinto Mascarenhas:
"Não me considero um homem rico... (...) eu ganho cerca de cinco mil euros". - José Sócrates a responder à imprensa, depois do debate quinzenal na Assembleia da República, a propósito da medida anunciada de cobrar mais impostos aos "ricos".
Vejamos. Cinco mil euros... imagino que por mês. Um estagiário de jornalismo (só para falar da realidade que conheço melhor) normal, ou seja, sem cunha e sem aquele rasgozinho de sorte que faz tanta falta, ganha sensivelmente 150 euros por mês durante o estágio, correspondentes aos subsídios de transporte e de alimentação. O rendimento mensal do nosso primeiro-ministro daria assim para pagar 33,3 estagiários de jornalismo. Nem vou mencionar quantos jornalistas tem hoje em dia a redacção de uma revista ou de um jornal não generalista.
Claro que esta minha comparação é absurda. Aliás, acho que nem é comparação: as declarações de Sócrates serviram apenas de pretexto para falar um bocadinho da vergonhosa situação dos estagiários de jornalismo. Mas voltemos a Sócrates, que não se considera um homem rico. Já sabemos que o nosso primeiro quer reduzir as deduções "aos ricos" (é só de mim, ou isto é absolutamente vago?). Ganha cinco mil euros por mês, mas não se considera rico. Pergunto-me, então, como vai Sócrates fazer: irá reduzir os descontos apenas para todos aqueles que ganham mais de cinco mil euros por mês? Irá reduzir os seus próprios descontos por achar que qualquer pessoa que ganhe para cima de dois mil e quinhentos euros já pode ser considerada rica? Ou faz toda a gente comer na mesma gamela, menos ele? Não sei se ele tem noção, mas todas as pessoas que sobrevivem com o ordenado mínimo - que é inferior a 20% do ordenado do primeiro, note-se* - também não se consideram ricas.
Ganhasse cinco mil euros por mês, ainda que brutos, e não teria metade das preocupações que tenho. Podia morar sozinho, ter sempre uma garrafinha de Jack Daniels na mesa de cabeceira, encomendar mensalmente livros do Amazon.com, comprar um leitor de vinil só para poder ter aquele best-of lindíssimo dos Radiohead que encontrei na Fnac há dias, ter um computador decente e não ter preocupações com a mensalidade do World of Warcraft, ou com os picos de latência que o meu portátil velhinho e queimado dos cigarros dá sempre que jogo. Mas não é caso para me chatear. Talvez ainda vá a tempo de fazer carreira numa jota qualquer por aí.
john
*Note-se que defendo que os políticos devem ser muito bem remunerados. Não me chateia minimamente que Sócrates ganhe cinco mil euros mensais. Chateia-me, sim, que diga disparates destes. E que ganhe esses cinco mil euros para fazer a merda que faz, e para dizer as merdas que diz. Haja pachorra.
"Não me considero um homem rico... (...) eu ganho cerca de cinco mil euros". - José Sócrates a responder à imprensa, depois do debate quinzenal na Assembleia da República, a propósito da medida anunciada de cobrar mais impostos aos "ricos".
Vejamos. Cinco mil euros... imagino que por mês. Um estagiário de jornalismo (só para falar da realidade que conheço melhor) normal, ou seja, sem cunha e sem aquele rasgozinho de sorte que faz tanta falta, ganha sensivelmente 150 euros por mês durante o estágio, correspondentes aos subsídios de transporte e de alimentação. O rendimento mensal do nosso primeiro-ministro daria assim para pagar 33,3 estagiários de jornalismo. Nem vou mencionar quantos jornalistas tem hoje em dia a redacção de uma revista ou de um jornal não generalista.
Claro que esta minha comparação é absurda. Aliás, acho que nem é comparação: as declarações de Sócrates serviram apenas de pretexto para falar um bocadinho da vergonhosa situação dos estagiários de jornalismo. Mas voltemos a Sócrates, que não se considera um homem rico. Já sabemos que o nosso primeiro quer reduzir as deduções "aos ricos" (é só de mim, ou isto é absolutamente vago?). Ganha cinco mil euros por mês, mas não se considera rico. Pergunto-me, então, como vai Sócrates fazer: irá reduzir os descontos apenas para todos aqueles que ganham mais de cinco mil euros por mês? Irá reduzir os seus próprios descontos por achar que qualquer pessoa que ganhe para cima de dois mil e quinhentos euros já pode ser considerada rica? Ou faz toda a gente comer na mesma gamela, menos ele? Não sei se ele tem noção, mas todas as pessoas que sobrevivem com o ordenado mínimo - que é inferior a 20% do ordenado do primeiro, note-se* - também não se consideram ricas.
Ganhasse cinco mil euros por mês, ainda que brutos, e não teria metade das preocupações que tenho. Podia morar sozinho, ter sempre uma garrafinha de Jack Daniels na mesa de cabeceira, encomendar mensalmente livros do Amazon.com, comprar um leitor de vinil só para poder ter aquele best-of lindíssimo dos Radiohead que encontrei na Fnac há dias, ter um computador decente e não ter preocupações com a mensalidade do World of Warcraft, ou com os picos de latência que o meu portátil velhinho e queimado dos cigarros dá sempre que jogo. Mas não é caso para me chatear. Talvez ainda vá a tempo de fazer carreira numa jota qualquer por aí.
john
*Note-se que defendo que os políticos devem ser muito bem remunerados. Não me chateia minimamente que Sócrates ganhe cinco mil euros mensais. Chateia-me, sim, que diga disparates destes. E que ganhe esses cinco mil euros para fazer a merda que faz, e para dizer as merdas que diz. Haja pachorra.
**Nota: Já tenho parte da resposta, obtida n'O Insurgente: "Eu ganho cerca de 5 mil euros e não me considero um homem rico. O meu escalão de IRS é de 42 por cento. E acho que devo ter deduções menores [no IRS] na saúde e educação". Com cinco mil euros mensais, José Sócrates não se considera "um homem rico", mas acha que deve ter deduções menores - ou seja, as mesmas reduções que disse querer aplicar aos ricos, aos tais que "sabia muito bem quem eram". É só de mim, ou isto não tem qualquer sentido?









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