9.2.09

Dos autógrafos.

Tenho uma amiga que é mais ou menos obcecada com figuras públicas. Sim, sei que o termo é forte, mas adequa-se: ela tem uma obsessão com figuras públicas. Sei que me inveja por eu morar em Lisboa: como se sabe, 99% das figuras públicas que ilustram a TV7Dias e as restantes revistas do género, ou aquelas que, não ilustrando a imprensa cor-de-rosa, aparecem na televisão, vivem em Lisboa ou arredores. Sempre que nos vemos, é inevitável a pergunta: então não tens visto ninguém famoso lá em Lisboa? Quando lhe disser que, há dias, quase esbarrei com o Ricardo Araújo Pereira à entrada da Faculdade de Letras, já sei qual será a pergunta que se segue, repleta de entusiasmo: então e não lhe pediste um autógrafo?

Não pedi, e quando lho disser (à minha amiga, não ao Ricardo), ela vai olhar para mim como se eu fosse um extraterrestre.

Já dei para este peditório, confesso. Recordo-me de, em criança, ter pedido um autógrafo ao Camacho Costa quando ele foi fazer uma peça de teatro lá à aldeia (ele era natural de Odemira, e muito simpático). Também me lembro de, em idade púbere, ter pedido um autógrafo aos Da Weasel, no tempo em que gostava da música deles. E pedi um ao Gonçalo M. Tavares, na Feira do Livro de há quatro anos, mas apenas para quebrar o gelo e pedir-lhe que me desse uma entrevista (que infelizmente não chegou a acontecer). E ele escreveu numa página em branco d'O Senhor Valéry um autógrafo originalíssimo. Hoje, naturalmente, acho tudo isto um disparate. Pedir um autógrafo é insignificante. Okay, tenho um canto de guardanapo onde limpei a boca da gordura da carne de porco à alentejana assinada pelo Luís Figo? Não serve para nada, o autógrafo. Ou antes: serve para incomodarmos uma pessoa como nós - sim, como nós (a minha amiga discorda: quem aparece na televisão é mais do que o comum mortal) - quando ela decididamente não quer ser incomodada. E depois, que diabo: pedir um autógrafo a um jogador de futebol é um disparate. Se eu me cruzasse com o Gerrard, pedia-lhe antes que desse uns quantos toques de bola para mim. O mesmo se aplica a um actor - podia pedir-lhes, sei lá, que representasse uma cena qualquer de Shakespeare, que toda a gente conhece. A um escritor a coisa já poderia fazer mais sentido - com aquela cena de assinar os livros e tal. Mas vamos a um evento com escritores e o espectáculo torna-se deprimente. Veja-se o pobre do Saramago, já vergado da idade, na Feira do Livro: a fila de gente que quer os livros assinados atravessa o Parque Eduardo VII todo e dá quase duas voltas à rotunda do Marquês. Ou, no Verão, quando o escritor George Martin esteve por cá: estava pouca gente na apresentação, mas houve quem levasse a obra completa do homem para ele assinar. Gente que se prestou a carregar quilos e quilos de livros (o senhor bate o Miguel Sousa Tavares em volume da obra à primeira volta) para o desgraçado assinar. Talvez isso explique o sorriso dele quando o abordei da seguinte forma: "Hello, sir *handshake*. Well, I'm sorry, but I have no book for you to sign. As a matter of fact, I haven't even read any of your books - yet. I'm quite curious about them though. But I really enjoyed your conference here, you said a lot of interesting things. And I'd like to ask you for some advice, since I'm beginning to write science fiction and fantasy as well." Isto deu conversa para um quarto de hora, com Martin visivelmente aliviado.

Este ano, no Fórum Fantástico, tive a oportunidade de conhecer outro escritor de SF&F: Richard Morgan. Não lhe pedi um autógrafo, evidentemente. Mas, durante um jantar, consegui ter uma conversa interessantíssima com ele. E isso para mim é mais valioso do que um bocadinho de papel assinado. Se eu tivesse a oportunidade de conhecer o Thom Yorke (só para citar o post ali abaixo), garanto que não lhe pedia um autógrafo, mas agradecer-lhe-ia pelas excelentes músicas que tem feito para eu ouvir. Gostaria imenso de falar com ele, de o ouvir a dar uns acordes da Knives Out e tal, mas não lhe pediria um rabisco. A memória que traria de o ter conhecido, e de com ele ter falado, seria bastante mais minha do que a folhinha de papel.

É por estas e por outras que a minha amiga continua a pensar que eu sou um extra-terrestre.

john

0 Comments:

Post a Comment

<< Home