9.3.09

É por correio electrónico

Também li sobre o caso que mencionas, Fábio, e era para ter deixado as palavras que se seguem em comentário.

Compreendendo o teu choque, que, de resto, também eu senti, parece-me a mim exagerado atribuíres uma atitude isolada de um representante da Igreja à instituição no seu todo. É certo: a Igreja Católica mantém alguns dogmas francamente discutíveis, mas este caso em concreto, no seu fundamentalismo, é isolado. Creio eu. A Igreja pode ser contra o aborto - e tem todo o direito de o ser - mas prefiro acreditar que apenas uma percentagem muito reduzida dos seus clérigos chegaria ao extremo do arcebispo que excomungou pais e médicos e, provavelmente, até as funcionárias de limpeza do hospital que limparam o quarto da rapariga. Parece-me a mim que esse arcebispo foi mais papista do que o próprio Papa.

Não se trata aqui de estar a defender a Igreja - e logo eu, que, não sendo exactamente ateu (e irrita-me o ateísmo militante), vivo confortavelmente na indiferença divina. Dito de outra forma, aceito a possibilidade de existir uma qualquer transcendência - Deus, na tradição cristã, ou o "invertebrado gasoso", como lhe chamava o meu professor de Filosofia. No entanto, creio que a existir Deus, ele há muito se raspou para outro sítio qualquer, onde vive confortável a apanhar sol, a comer açorda de marisco, a beber vinho tinto alentejano e na companhia de uma série de beldades que fazem o blogue E Deus Criou a Mulher parecer uma coisa rasca. Pelo menos seria o que eu faria se entre as minhas alcunhas figurasse a de Todo-Poderoso e entre as minhas capacidades estivesse a omnipotência (talvez também desse o campeonato ao Benfica, porque acho que sem ajuda divina não vão lá).

Quanto à tua educação católica, acho que por mais excomunhões que bispos e arcebispos distribuam não te deves envergonhar dela. Não há nada de fundamentalmente errado nos valores cristãos. Bem pelo contrário. Há, sim, gente que faz interpretações muito próprias - passe o eufemismo - desses valores, e normalmente isso dá para o torto. Eu também tive uma educação mais ou menos religiosa, mas a dada altura - mais ou menos na mesma idade que tu - afastei-me da coisa. Agora que penso nisso, estou em crer que as aulas de Filosofia são o mais temível inimigo da doutrina cristã entre os jovens - ou, pelo menos, entre aqueles jovens que gostam de pensar pela sua própria cabeça.

A excomunhão propriamente dita, dado o tempo em que vivemos, pode bem ser feita por correio electrónico. Se isso não for possível, então devemos enviar o nosso primeiro-ministro ao Vaticano com urgência, de modo a abençoar o Choque Tecnológico, o Simplex, a Modernização Administrativa e até, quem sabe, o Magalhães (mas sem erros ortográficos e de sintaxe, se possível).

john

2 Comments:

Blogger fábio videira santos said...

Ainda bem que alertaste para esse meu exagero. Voltei e ler e é possível essa leitura. Não me expliquei da forma mais adequada. O que eu queria realçar é a exagerada importância que se dá à Igreja neste caso, isolado que é. Longe de mim querer generalizar, apesar de reiterar a minha deposição de confiança tendencialmente na ciência.
E não me envergonho da educação católica que tive, como disse faz parte de mim, aquela introdução um pouco dura foi para revelar a minha perplexidade com o caso em concreto.

(fui pesquisar e descobrir que há vários tipos de excomunhões, o que dá uma sofisticação inaudita ao processo)

abraço, caro john

4:34 PM  
Blogger João Campos said...

Peço desculpa pelo erro de interpretação, então.

A importância excessiva que se dá à Igreja neste - e noutros casos - é apenas "vontade de malhar". Está na moda desancar a Igreja assim que ela abre o flanco - e os seus representantes, homens e falíveis que são, abrem-no com mais regularidade do que seria desejável.

Também eu confio na ciência, apesar de ser incapaz de negar a importância da religião. São planos diferentes. Penso em algumas das melhores pessoas que já conheci, e a religião é um traço comum a elas. E penso noutras para quem a vida foi particularmente cruel, e que se mantiveram à tona porque tinham essa fé como bóia de salvação. Aqui recordo-me de uma pessoa que me era particularmente querida, e que infelizmente já não se encontra entre nós. Por ela, a ciência pouco fez - não lhe salvou a filha da morte aos dezoito anos, não evitou a doença cardíaca crónica que, enfim, acabou por a consumir. Mas a sua fé deu-lhe as forças necessárias para aguentar as tormentas - e nunca por um momento a colocou em causa. Para pessoas destas - e há muitas por aí - o ateísmo militante que vemos hoje em dia é simplesmente estúpido. E é fundamentalmente por isso que me oponho a isso - e, claro, por achar que esse ateísmo está a ganhar contornos de religiosidade. Gosto de ironia, mas não exageremos.

Abraço (e aproveito para dizer que é possível que eu vá ao Porto em finais deste mês...).

4:45 PM  

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