13.4.09

Páscoa na aldeia (II)

Caminhámos pela aldeia durante a noite. Passámos pelo recinto das escolas, da escola que frequentei nos primeiros anos da minha vida. Ainda me lembro dos edifícios antigos, do pátio fechado onde, durante os dias de chuva, jogávamos futebol ou patinávamos sobre a sola dos ténis. Da parede de pintura quebradiça, que se soltava de cada vez que a bola lhe acertava com mais força. Lembro-me dos grandes pinheiros-bravos - seis no total - que se viam ao longe, rodeando a escola. Eram iluminados no Natal pela junta de freguesia. A cada inverno, enchiam-se de ninhos brancos, carregados de lagartas cor-de-laranja - bichos-dos-pinheiros, como lhes chamávamos, que percorriam os muros do recinto em longos carreiros e espalhavam alergias. Lembro-me de uma ocasião - andava eu na quarta classe - em que derrubámos imensos ninhos, que empilhámos no pátio, regámos com gasolina e incendiámos. Recordo também a enorme caixa de areia do recreio, onde um escorrega e um baloiço decrépitos permaneceram durante anos - ainda me lembro de serem novinhos em folha. Lembro-me também do avião. Sim, no recreio da escola havia um avião, uma antiga máquina de guerra que à época não passava de uma carcaça de metal retorcido, pontas aguçadas e vidro quebrado. E lembro-me dos muros que delimitavam o perímetro do recinto escolar - baixos, fáceis de trepar mesmo para um miúdo de sete anos.

Fui notando as mudanças no meu antigo recinto escolar à medida que os anos passaram. O velho avião foi desmantelado há anos, e levado para outro lugar para enferrujar em paz. Os pinheiros foram abatidos. O antigo pátio foi completamente fechado, dividido e restaurado, de acordo com os modernos procedimentos. E a grande caixa de areia foi removida - diz-me o meu amigo que isso se deveu a bactérias - foi agora substituída por uma cobertura de borracha esterilizada, e novos brinquedos, brilhantes, coloridos e seguros, foram montados no local. É agora impossível encontrar pedras soltas ou lama no recreio - uma camada de relva (verdadeira? artificial? não sei dizer.) cobre agora todo o espaço que antes era ocupado por terra batida, canteiros de rosas arranjados pelo velho jardineiro e ervas daninhas. Sobre os muros baixos foi montada uma rede alta, que contorna todo o espaço e encerra os novos portões de metal reluzente, também altos. Ninguém entra ou sai do recinto. Uma escola moderna, dizem-me, onde as crianças estão a salvo de todos os perigos - e estão mesmo a salvo delas mesmas. Aos meus olhos, não passa de uma prisão, de um espaço fechado que faria qualquer criança do meu tempo infeliz.

O meu amigo, durante a caminhada, evocou as palavras adequadas: estamos a enfiar crianças num redoma. Num redoma esterilizado onde não podem correr livremente e aprender algo que não se aprende numa sala de aula - a noção de perigo. Olho para os meus joelhos e vejo várias cicatrizes, vestígios das quedas de uma criança para quem o equilíbrio sobre os próprios pés foi sempre um desafio (ainda é). Perdi a conta das quedas que dei, das vezes em que vi sangue a escorrer dos meus joelhos, e que resolvi o problema com algodão e água oxigenada (hoje já não se pode usar água oxigenada). Era assim no meu tempo - caíamos a jogar à bola, aprendíamos a andar de bicicleta sem armadura, trepávamos tudo aquilo que era possível trepar. Coxeávamos uns dias, mas isso não nos impedia de continuar a fuzilar com uma bola o desgraçado que fosse parar à baliza - que, frequentemente, era feita apenas com duas pedras grandes e contada em passos. Não conheço traumas, infâncias destruídas ou necessidade de batalhões de psicólogos por causa da lama, da areia com bactérias, do velho avião destruído que guardava o recreio. Hoje criamos miúdos num mundo artificial e esterilizado (e estéril). Lentamente, receio, daremos forma a uma sociedade de lunáticos.

A insanidade moderna chegou à aldeia, ao mais improvável dos lugares. Eu olho para o velho recinto e sinto apenas saudades dos pinheiros.

john

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