8.7.09

espelhos e reflexos #24

Impressionante o caudal de pessoas que passava naquela rua e ninguém a ouvia. Não se poderia dizer que não a vissem, do alto do seu banco de madeira, a alvitrar mandamentos tirados à pressão de um vocabulário bem vasto. Era uma mulher idosa que mendigava havia anos naquela rua movimentada. Curioso o cérebro que, apesar de receber pinturas mandadas pelo nervo óptico em enxurrada de informação para o lobo occipital, procede ao apagamento das pessoas das imagens. E aquela gente que mirava, apressadamente, a velha que alvitrava mandamentos tirados à pressão, apagava-a da memória desses quadros.
Neste dia estava a ser diferente. Desde manhã que a mulher repetia, incessantemente, "tem cuidado quando decidires fazer barulho". Aproximou-se, então, outro mendigo que, uma vez que não tinha apressadamente de se dirigir para outro sítio onde perder minutos, a observava e, diria-se, questionava-se.
- Tem cuidado quando decidires fazer barulho - disse ela.
- Porquê, mulher, porquê?
- Poderás nunca mais voltar ao silêncio.




fs

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