5.5.10

espelhos e reflexos #33

Foi quase como um fogo-de-artifício nos olhos. Depois dos conjugados, das interacções intensas entre alguns, algumas moléculas ligantes a outras que, na saciedade, não hesitavam em corresponder. Foi um tempo de querer ficar parado no meio de quatro páginas de linhas e escrever todas as respostas do corpo que se defende. Mas foi quase como um fogo-de-artifício. Uns amigos banhados a ouro enquanto se percorriam as ruelas e as suas calçadas. Um barulho colectivo no ar. E não eram animais, não não eram. Encarreirados alguns como carneirinhos lá bem que iam a trotar na cadência do seu passo de tanta humilhação para vestir de negro. Os outros, já de negro talvez incorporando conscientemente o luto da sua estupidez, iam gritando para os carneirinhos. Estávamos também vestidos de negro para celebrar a comunidade que somos e novo advento que seremos. E não, não era ódio o que os nossos olhos viam. Um fogo-de-artifício, tenho a certeza. Espanta-nos a humildade de reconhecer de que ninguém é como nós, ninguém está dentro deste texto, isto não é ninguém. Uma luz no fundo daquele palco também não era nossa, mas o fogo-de-artifício nos nossos olhos era tal que se nos revelassem a verdade não acreditaríamos. O esbracejar dos dois bêbados que nos acompanhavam na dança, sem nos conhecer, era mais sincero do que os olhinhos das três raparigas bem apresentadas no grupo em frente e, a julgar pela indumentária, bem intencionadas em nos entreter. O álcool trazia-lhes, aos dois bêbados de braços irrequietos, a mesma estupidez de tantos, mas enquanto o faziam tinham mais ingenuidade do que os olhares das raparigas. O recinto é assim uma espécie de cuba para onde todos fomos deitados e onde cada alucinação não trará mais nitidez. Mas era, sim, um fogo-de-artifício nos olhos. E nunca tivemos de necessidade de perguntar: o que fazer agora? Até mesmo que os pés colados por aquela cevada fermentada e, a espaços, algum absinto que não se acomodou no antro pilórico de alguém, não nos paravam. Gritámos muito, quase sempre sem nos ouvirmos. Deu para ler nos lábios de um rapaz de óculos com armação escura a declaração de amor a uma rapariga tão platónica como as tragédias gregas. A rapariga não percebeu, o rapaz de óculos com armação escura não repetiu. Via-se que tinha um fogo-de-artifício nos olhos. Acabámos por acordar de manhã a trautear melodias que a noite jamais nos trouxera na euforia de clarabóias nocturnas. Rimos durante uma hora pois nada de melhor tínhamos para fazer. Notava-se tanto que ainda andávamos com um fogo-de-artifício nos olhos.





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14.12.09

espelhos e reflexos #32

Grosso modo, tenho em mim todas as respostas, todas as atitudes em modo fight-or-flight. Possuo a faculdade de lutar até à fadiga pela permanência de homeostasia da minha relação com o exterior, não contando com as várias trincheiras do nosso âmago (ainda está para chegar a minha crua inquietação com os processos internos e conflituosos que lidam, convenhamos, com aquilo que poderei ser o que penso). Mas fujo, não raras vezes, descurando a luta por uma fadiga que mostre sempre a parte vantajosa do recobro, do reverso das situações frequentemente agudas. Aliás, tenho fugido bastantes vezes com a sensação estabelecida de que não conseguiria repelir o que me atormenta ou pressiona ao ponto de evidenciar, muito mais do que a capacidade de adaptação, um uso sistemático do medo e da evasão de maneira a que, numa qualquer lei de uso e do desuso, irei um dia tornar-me eu próprio o medo ou então um ser entrópico concomitante com esse medo. É necessária, pois, uma nova nomenclatura para o efeito. Certamente que Lamarck não saberia, nem poderia crer, que tantos mas tantos cobardes são de geração espontânea. E assim nos vamos herdando.





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29.11.09

espelhos e reflexos #31

Há dias, sem que o pudesse prever, nem mesmo na maior das aleatoriedades meteorológicas, estive ao lado da origem de propagação de uma quase revolução. A boca de um senhor de sessenta e poucos anos era o epicentro e o seu coração – muito mais do que qualquer córtex cerebral ou qualquer outro compartimento encefálico – era o danado hipocentro. É sabido que, em tempo de eleições, as estribeiras levam-nos o raciocínio: mais que a retórica, assola-nos a manipulação, enxurradas de promessas do deus-dará e tudo que aquilo que, em tempo normal de pasmaceira nacional, é considerado exagero. O senhor apanhou-me na sua suposta teia argumentativa estava eu para chegar à estação de São Bento. Distribuía uns panfletos. Eu parei na passadeira em frente à estação, perante o sinal vermelho. Foi o meu mal. Começou, em surdina:
- Ó jovem, costumas votar? – dando-me um dos panfletos.
- Sim – retribuí.
- Muito bem. Conheces o PCTP/MRPP?
- Muito vagamente. Conheço o seu candidato Garcia Pereira e pouco mais.
Se a minha ignorância fizesse o seu papel da ocasião – desinteressando o homem da minha limitada visão política, juntamente com a passagem do sinal a verde - eu seguiria a minha vida a bom termo. Porém, o homem, impulsionado por horas e horas a ser ignorado enquanto partilhava panfletos e ideias de algibeira que mais ninguém aturava, entusiasmou-se. Começou, portanto, a dar a missa. Não tardei a ouvir inflamadas palavras sobre a sociedade, a economia, a saúde, as leis, a meio já evocava a revolução de Abril e o PREC. Uma barafunda.
À quinta vez que o sinal mudou para verde, esquivei-me com a pouca arte de terminar conversas:
- Desculpe, mas tenho de me ir embora, tenho um comboio para apanhar.
E corri feito uma gazela pela passadeira, chegando ao outro lado e não me atrevendo a olhar para trás. O homem permanecia exaltado, invectivando à revolta, ecoando pelos ares:
- Ó amigo, esta merda só lá vai com uma nova revolução, oiça o que lhe digo.
Apanhei o comboio. Chegado a casa, procurei pelos canais de televisão, pela rádio, pela internet. Não surgiam notícias de uma nova revolução. Afinal, se nascem coxas, dificilmente poderão marchar. Pobre do homem que não pôde prever a minha ataraxia.




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15.11.09

espelhos e reflexos #30

É impossível não se gostar da Rua de Santa Catarina em Novembro. Mesmo todos os dias do ano é difícil não se gostar, contudo, em Novembro, é uma injúria não apreciá-la, não estacar um momento na largueza do espaço, com o vento sorrateiro e frio subindo-nos pela pele do pescoço, e observar o ziguezague das pessoas a deambular no empedrado. Certas ruas conseguem condensar o mundo, não têm medidas, são micro-cosmos. Mas em Novembro é diferente pois aparecem elas, as castanhas, aparece ele, o fumo. E se aparecem elas, as castanhas, e ele, o fumo, a nossa rua assemelha-se às lareiras de casa, ao calor e ao crepitar da lenha da infância. Relembramos os olhos dos nossos avós, o beco do quintal onde repousavam os castanheiros, o sotaque sibilante do pároco da aldeia.(Eu bem avisei que era um micro-cosmos). E a nossa rua está cheia, são as reuniões esparsas dos familiares, dos amigos, dos errantes, são os agregados envoltos na tonalidade cinzenta do ar, nos aromas intrometidos. Tudo porque apareceram elas, as castanhas, ele, o fumo.




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8.10.09

espelhos e reflexos #29

Há dias estive para morrer. Na mesma semana em que a minha mulher fugira, na calada da noite e deixando-me um bilhete na mesa-de-cabeceira, com o coveiro da aldeia. Esfaquearam-me de lado no peito, na rua escura da taberna onde, numa propulsão de álcool, os amigos imaginários respondiam ao apelo. Estive para morrer e só me ocorria que, à custa da minha maldita mulher, não teria pelo menos uma cova feita pelo homem que ao retirar a terra fresca me enfeitava os cornos secos. Sozinho pasmei vários minutos aguardando que o corpo por fim se imobilizasse. Até que vozes trespassadas e distantes juntamente com o barulho difuso de uma ambulância me arranharam a consciência. Raciocinei, na medida do possível, que apenas uma morte ridícula seria uma singela justificação para a relatividade de uma vida equiparada a uma vindima sem cachos de uva. A minha morte seria ridícula o bastante. Na maior das contemplações principiei a rir a bom som. À medida que me enfiavam na ambulância, no preciso momento em que se preparavam para fechar a porta, através das minhas gargalhadas, reparei em dois homens no lado de fora observando-me. Um velho de cabelos brancos a fumar e um jovem de colete-de-forças mordendo na boca um frasco de vidro. Num sussurro rouco, o homem de cabelos brancos abordou-me:
- You are welcome...
- ...to Elsinore - gritei sem para de rir num estrondo de histeria.
O homem de cabelos brancos sorriu-me. De brilho nos olhos virou-se para o jovem de colete-de-forças e ordenou:
- Sá-Carneiro, larga o raio do frasco!
O jovem anuiu e o velho retirou-lhe da boca o frasco cor de caramelo, atirando-o para longe, ouvindo-se um estilhaço de cacos de vidro no alcatrão.
- Lá se foi a minha estricnina - lamentou o jovem de risco ao meio no cabelo, em tom tremido.
Contemplámo-nos os três - não me recordo de qualquer enfermeiro ou médico. Em olhos reveladores rebentámos numa erupção efusiva e estridente de risos convulsos.
Alguém fechou a porta. A ambulância agitou-se. Para lá dela irrompia a voz do jovem de colete-de-forças cantarolando:

" -Quando eu morrer batam em latas
Rompam aos berros e aos pinotes -
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa
E eu quero por força ir de burro..."


Não sei se cheguei a morrer. Ainda assim, continuo a vaguear em peregrinação, todas as noites, à taberna onde faço amigos. Quanto à minha mulher e ao coveiro - dizem as más-línguas -, mudaram-se para o norte e vivem muito felizes.




fs

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21.9.09

espelhos e reflexos #28

Possuir amigos imaginários é absolutamente imprescindível para enfrentar a realidade ou o que dela nos chega. É um bálsamo para a dureza dos cotovelos doridos, produto cosmético competente na erradicação das olheiras. Recomenda-se, a todas as crianças - e, por isso, ao futuro adulto - um amigo imaginário. Melhor que óleo de fígado de bacalhau. Devem ser concebidos, os imaginários, na mesma frequência com que o flúor é dado aos rebentos na escola primária. Prioridade nacional na educação do povo: ajudam a saber viver, diminuem o gasto anual de morfina pelo serviço nacional e saúde e - há quem finque a pés juntos - atenuam o sofrimento de cessação da vida.



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7.9.09

espelhos e reflexos #27

Na paragem de autocarro em frente do Hospital de Santo António, uma criança rezingona - um menino em altos brados - provocava na mãe, que lhe dava a mão, a maior das vergonhas aparentes. É o normal: inquietam-se com muita facilidade, não porque são menos resistentes, mas porque não sabem ainda camuflar aborrecimentos e tédios, não usam artimanhas ou esquemas para disfarçar para os outros que está tudo bem (a não ser em proveito próprio, que essa estirpe existe já com um sentido de gestão emocional dos pais de grande calibre). É uma virtude que, fora alguns casos futuros, não se deveria esmorecer.
Como a criança não acalmava e, tendo em conta o repúdio dos olhares pelo amordaçar da pequenada, a mão enveredou pela valente bofetada na bochecha, acção há muito aceite como lugar-comum. Mulheres enrugadas e outras viçosas acenavam afirmativamente. “Há males que vêm por bem. Ajuda a crescer”, dizia uma senhora inchada. A criança rebentou numa explosão de choro, daqueles incomodativos de tão estridentes. Um saudoso professor de filosofia, se presente, manifestaria a sua desilusão pelo insistente desvio do correcto sítio destinado para endireitar o comportamento ruim: o rabo. “A estrutura anatómica concebida para, entre outras coisas, receber o castigo parental”, diria, ajeitando a gravata.
No cruzamento de memórias espiraladas, assomou novamente a criança à visão. Não havia lugar para mais choro. Chegou o autocarro em que entrou ordeiramente com a mãe e, pouco antes do veículo arrancar, já distribuía sorrisos e caretas à progenitora de cara terna.
O esquecimento é, de quando em vez, uma boa virtude também.



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16.8.09

espelhos e reflexos #26

- A vida é como uma aula: fornece-te todos os instrumentos e todas as ocasiões para atingires todo o conhecimento.
- Contudo, nunca chegamos, mesmo o mais acutilante dos génios, ao conhecimento absoluto das coisas. Porquê?
- Porque, tal como numa sala de aula, jamais podemos estar constantemente atentos.



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22.7.09

espelhos e reflexos #25

Pequenos apontamentos para um futuro testamento:

Quis saber escrever.
Falhei.
Quis saber ler.
Falhei.
Quis saber viver.
Morri.




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8.7.09

espelhos e reflexos #24

Impressionante o caudal de pessoas que passava naquela rua e ninguém a ouvia. Não se poderia dizer que não a vissem, do alto do seu banco de madeira, a alvitrar mandamentos tirados à pressão de um vocabulário bem vasto. Era uma mulher idosa que mendigava havia anos naquela rua movimentada. Curioso o cérebro que, apesar de receber pinturas mandadas pelo nervo óptico em enxurrada de informação para o lobo occipital, procede ao apagamento das pessoas das imagens. E aquela gente que mirava, apressadamente, a velha que alvitrava mandamentos tirados à pressão, apagava-a da memória desses quadros.
Neste dia estava a ser diferente. Desde manhã que a mulher repetia, incessantemente, "tem cuidado quando decidires fazer barulho". Aproximou-se, então, outro mendigo que, uma vez que não tinha apressadamente de se dirigir para outro sítio onde perder minutos, a observava e, diria-se, questionava-se.
- Tem cuidado quando decidires fazer barulho - disse ela.
- Porquê, mulher, porquê?
- Poderás nunca mais voltar ao silêncio.




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24.6.09

espelhos e reflexos #23

Vejo muitas vezes o eléctrico passar em frente, numa vertigem de nostalgia. Na imortalidade simbólica que tatuará as coisas do mundo com o meu nome, relembro as corridas que amiúde fazia na esperança do o apanhar na zona da Reitoria. A vida dividia-se entre alcançá-lo ou não. Nunca vi dicotomia que me representasse, inequivocamente, os meandros da minha existência. A dúvida acaba por não ser se existo ou não, quanto muito se consigo utilizar os meus membros para acompanhar o eléctrico. Por conseguinte, segue a ideia de que não posso negar a vida enquanto o eléctrico enfrentar o atrito dos carris. A soma dos nossos medos e vícios concorre com a velocidade do eléctrico. Quando perdemos a capacidade inata de o acompanhar, atrofiamos, e os músculos entorpecidos são o grito de debandada para a desintegração existencial – isto é, supondo a existência como válida, e não uma falácia de observação dos nossos sentidos (existem de facto?) tantas vezes agentes de camuflagem.
Correr é a solução. O eléctrico a meta. Contemplemo-nos, portanto, quais Carlos da Maia e João da Ega, vencidos que foram da vida, correndo em funções de estiramentos das cordas dos relógios. Lado a lado com o eléctrico e vencendo o atrito. Sempre vencendo o atrito.




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11.6.09

espelhos e reflexos #22

Estão sentados nas mesas de pedra ao lado da igreja. Em silêncio. Nenhum deles se atreve a formular o mais simples som. Ela quieta a olhar para ele. Ele a escrever no bloco de apontamentos que jamais larga. Vinte centímetros os separam e, no entanto, a distância nunca lhes pareceu tanta. Sabem-se separados e recusam encetar o corte do laço que os une.
No cimo da igreja começa a tocar o sino fúnebre. Sai em cortejo um caixão ladeado por pouquíssimas pessoas. Contam-se pelos dedos. As más-línguas dizem que o morto é um homem que sucumbiu a um excesso de nostalgia.
Eles decidem olhar, por fim, um para o outro. Cabe a ela articular o primeiro som indicativo de uma separação iminente. Ele continua a escrevinhar. O discurso acaba.
- Não há mais nada a dizer
Ele levanta-se, rasga a folha do bloco e coloca-a, religiosamente, nas mãos suaves dela enquanto se afasta.
- Nunca houve
Nas mãos repousa um alinhavar de palavras:

Mata-me, pois, matando-me de morte
Que um morto cheio de morte
Morto está de vida



Ele junta-se ao cortejo do homem que sucumbiu a um excesso de nostalgia. Desaparece no meio do bater estrondoso dos sinos. E nunca mais voltará a ser visto.




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27.5.09

espelhos e reflexos #21

Era um homem tão nostálgico que chegava a sentir nostalgia pelo dia que passara.
Quando morreu, os amigos que lhe sabiam a angústia, ao rodearem o caixão simples que ele escolhera antecipadamente, colocaram-lhe, por cima do peito, o papel que deixara escrito como o alívio dos dias:
"Acabou-me a nostalgia"




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15.5.09

espelhos e reflexos #20

O que espanta nas cartas de amor não é somente o facto de serem amiúde ridículas. Isso é um fardo com que se vive muito bem. O que espanta, dizia, é o facto de todos nós - por vezes máquinas que não sentem e que inserem o cérebro onde deveria estar o coração (um amigo chama-lhe "problema de hardware") - as temos de escrever um dia.







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1.5.09

espelhos e reflexos #19

O dom da ficção, ainda que bastante má, é poder contar mentiras.




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23.4.09

espelhos e reflexos #18

- O que espera ter na vida?
- Nada. Tendo em conta que ela me usurpou ao vazio, posso apenas ficar receptivo aos caminhos que me revele.
- Pretende, então, que a vida o coloque na ordem natural das coisas?
- Não conheço qualquer ordem ou desordem. À vida só me é permitido exigir uma justificação plausível para tudo isto. Sabe, acaba por não existir qualquer morte. A morte de que é usual falar é a vida a considerar, por algum modo desconhecido - provavelmente tão aleatório como o seu começo - , que podemos regressar ao vazio. É como se a vida encerrasse em nós um Deus pigmeu.
- Acha que alguma dessas considerações faz sentido?
- Não, nenhum.
- E consegue viver assim?
- Estou aqui, não estou?





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10.4.09

espelhos e reflexos #17

Como é possível falarmos tanto uns com os outros e dizermos tão pouco? Todas as conversas, se fossem espremidas até ao verdadeiro sumo da linguagem que é a informação, apenas dariam umas quantas palavras. É muito surpreendente esta situação. Constatar que este dom, chamemos-lhe assim, de comunicação é tão ilimitado e, no entanto, tão deficientemente utilizado. E por muito que se tente evitar, será sempre deste modo. Uma linguagem plena de adornos, como jóias a embelezar a superfície de um corpo.
Verdade seja dita, por muito que me choque esta constatação, não concebo uma linguagem sem adornos. É o que faz dela uma arte.



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25.3.09

espelhos e reflexos #16

Não gostar de ler. Não gostar de escrever. Não gostar de estudar. Não gostar de cozinhar. Não gostar de amar. Não gostar de correr. Não gostar de sonhar. Não gostar de cinema. Não gostar de música. Não gostar de pintar. Não gostar de ouvir. Não gostar de ver. Não gostar de sentir. Não gostar de cheirar. Não gostar de sorrir. Não gostar de chorar. Não gostar de respirar. Não gostar. Não.
Não gostar de viver.



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9.3.09

espelhos e reflexos #15

Na estação do Metro do Campo 24 de Agosto dois namorados sussurram eternidades aos ouvidos de cada um. Há em tantos desses pares uma falta de amparo, uma pobreza de tacto, um desconhecimento de fatalidades mútuas. Como várias camadas sobrepostas em que se conhece apenas as iniciais. Como pele em que se tacteia a epiderme, mas de derme imersa em neblina.
Na estação do Metro esses namorados beijam-se. Nem ele sabe quem ela é, nem ela reconhece os lábios que acolhe.
Chega a carruagem. Entro e sento-me na maior das preguiças. Chega de pensar nos desígnios do amor.



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26.2.09

espelhos e reflexos #14

Mecanismo de contracção do músculo cardíaco:

Tu.




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