Há dias, sem que o pudesse prever, nem mesmo na maior das aleatoriedades meteorológicas, estive ao lado da origem de propagação de uma quase revolução. A boca de um senhor de sessenta e poucos anos era o epicentro e o seu coração – muito mais do que qualquer córtex cerebral ou qualquer outro compartimento encefálico – era o danado hipocentro. É sabido que, em tempo de eleições, as estribeiras levam-nos o raciocínio: mais que a retórica, assola-nos a manipulação, enxurradas de promessas do deus-dará e tudo que aquilo que, em tempo normal de pasmaceira nacional, é considerado exagero. O senhor apanhou-me na sua suposta teia argumentativa estava eu para chegar à estação de São Bento. Distribuía uns panfletos. Eu parei na passadeira em frente à estação, perante o sinal vermelho. Foi o meu mal. Começou, em surdina:
- Ó jovem, costumas votar? – dando-me um dos panfletos.
- Sim – retribuí.
- Muito bem. Conheces o PCTP/MRPP?
- Muito vagamente. Conheço o seu candidato Garcia Pereira e pouco mais.
Se a minha ignorância fizesse o seu papel da ocasião – desinteressando o homem da minha limitada visão política, juntamente com a passagem do sinal a verde - eu seguiria a minha vida a bom termo. Porém, o homem, impulsionado por horas e horas a ser ignorado enquanto partilhava panfletos e ideias de algibeira que mais ninguém aturava, entusiasmou-se. Começou, portanto, a dar a missa. Não tardei a ouvir inflamadas palavras sobre a sociedade, a economia, a saúde, as leis, a meio já evocava a revolução de Abril e o PREC. Uma barafunda.
À quinta vez que o sinal mudou para verde, esquivei-me com a pouca arte de terminar conversas:
- Desculpe, mas tenho de me ir embora, tenho um comboio para apanhar.
E corri feito uma gazela pela passadeira, chegando ao outro lado e não me atrevendo a olhar para trás. O homem permanecia exaltado, invectivando à revolta, ecoando pelos ares:
- Ó amigo, esta merda só lá vai com uma nova revolução, oiça o que lhe digo.
Apanhei o comboio. Chegado a casa, procurei pelos canais de televisão, pela rádio, pela internet. Não surgiam notícias de uma nova revolução. Afinal, se nascem coxas, dificilmente poderão marchar. Pobre do homem que não pôde prever a minha ataraxia.
fs
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