Agosto e as senhas.
O problema não são apenas os hospitais, diga-se de passagem. Aliás, aproveito a deixa para narrar aqui a minha odisseia de hoje para conseguir ser atendido por um médico. No centro de saúde da minha área de residência (Ajuda), ao qual cheguei entre as onze e meia e o meio-dia, disseram-me "hoje já não há consultas, tem de vir noutro dia de manhã cedo e marcar" (sendo que "marcar" no contexto da Saúde em Portugal não é marcar a consulta para as onze e aparecer no consultório às onze, mas sim ir ainda de madrugada para a porta do centro de saúde para conseguir uma "senha" - o orgasmo precoce dos burocratas - que, com sorte, dá consulta às duas da tarde). Dirigi-me então ao Hospital de Egas Moniz, no qual me perdi por falta de indicações, e onde não encontrei qualquer sinal de atendimento geral, somente de especialidade, e num hospital cujas condições são dignas de Bagdade em dias de atentados à bomba. Meti-me num autocarro da Carris - num dos que não viram o percurso "reduzido" ou "suspenso" até Setembro - para ir até ao Centro de Saúde de Alvalade, ao Júlio de Matos, onde fiz uma "ficha temporária" quando vivia no Areeiro. "Mas é urgência?", inquiriu a senhora da recepção. "Não, é apenas uma consulta", respondi, por não se tratar de facto de uma urgência, pelo menos por enquanto. "Então tem de vir de manhã tirar senha", respondeu-me. A senha, a puta da senha.
Não me apetece ir para as urgências do Santa Maria ou do São José por causa de uma consulta que espero ser de rotina (quero ser visto por um médico que me passe alguns exames para fazer, se for necessário). Nos dias que correm, aliás, e com os belos hospitais que temos, a sala de espera das urgências é um pasto para vírus (alguém se lembra da Gripe A?) e uma tortura desumana - ainda tenho bem presentes os meus últimos episódios nelas. Quero, pura e simplesmente, ser visto por um médico. E ter-me-ia dado imenso jeito ter acontecido hoje, já que não trabalhava durante a maior parte do dia. Não aconteceu, faltava-me a "senha". Provavelmente nem me dariam a senha se fosse ao centro de saúde às seis da manhã, por "oficialmente" não ser a minha área de residência - e repetia-se a história de há uns anos, em que só não fui "recambiado" para Odemira porque a médica do centro de saúde de São Mamede era uma médica séria, uma profissional que se lembra do Juramento de Hipócrates e arranjou forma de contornar a burocracia da única maneira possível: gastando o tempo livre dela para me atender.
Enfim, Portugal é um país a senhas todo o ano, e a banhos em Agosto. No meu quarteirão, mantém-se em actividade a tabacaria e o supermercado. Tudo o que é café, esplanada, talho ou churrascaria está "de férias". Não se passa nada em Agosto - no meu quarteirão à Ajuda ou noutro ponto qualquer de Lisboa que não seja servido por um (ou mais) centros comerciais. A questão é cultural: somos o país onde a escolaridade obrigatória tem três meses de férias, entre meados de Junho e meados de Setembro, e nunca alguma luminária do Ministério da Educação se lembrou de que tão grande período de férias é absolutamente antipedagógico. Somos o país onde se discutem férias judiciais em Agosto. E onde toda a gente, invariavelmente, mete férias em Agosto. Os que não o fazem - porque não podem, porque não querem, porque, como eu, são imbecis ao ponto de preferirem Março, Novembro ou, se for para praia, Junho ou Setembro - não arranjam sítio decente para algo tão simples como tomar uma bica depois de almoço. Este país não existe.
john
Não me apetece ir para as urgências do Santa Maria ou do São José por causa de uma consulta que espero ser de rotina (quero ser visto por um médico que me passe alguns exames para fazer, se for necessário). Nos dias que correm, aliás, e com os belos hospitais que temos, a sala de espera das urgências é um pasto para vírus (alguém se lembra da Gripe A?) e uma tortura desumana - ainda tenho bem presentes os meus últimos episódios nelas. Quero, pura e simplesmente, ser visto por um médico. E ter-me-ia dado imenso jeito ter acontecido hoje, já que não trabalhava durante a maior parte do dia. Não aconteceu, faltava-me a "senha". Provavelmente nem me dariam a senha se fosse ao centro de saúde às seis da manhã, por "oficialmente" não ser a minha área de residência - e repetia-se a história de há uns anos, em que só não fui "recambiado" para Odemira porque a médica do centro de saúde de São Mamede era uma médica séria, uma profissional que se lembra do Juramento de Hipócrates e arranjou forma de contornar a burocracia da única maneira possível: gastando o tempo livre dela para me atender.
Enfim, Portugal é um país a senhas todo o ano, e a banhos em Agosto. No meu quarteirão, mantém-se em actividade a tabacaria e o supermercado. Tudo o que é café, esplanada, talho ou churrascaria está "de férias". Não se passa nada em Agosto - no meu quarteirão à Ajuda ou noutro ponto qualquer de Lisboa que não seja servido por um (ou mais) centros comerciais. A questão é cultural: somos o país onde a escolaridade obrigatória tem três meses de férias, entre meados de Junho e meados de Setembro, e nunca alguma luminária do Ministério da Educação se lembrou de que tão grande período de férias é absolutamente antipedagógico. Somos o país onde se discutem férias judiciais em Agosto. E onde toda a gente, invariavelmente, mete férias em Agosto. Os que não o fazem - porque não podem, porque não querem, porque, como eu, são imbecis ao ponto de preferirem Março, Novembro ou, se for para praia, Junho ou Setembro - não arranjam sítio decente para algo tão simples como tomar uma bica depois de almoço. Este país não existe.
john









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