espelhos e reflexos #29
Há dias estive para morrer. Na mesma semana em que a minha mulher fugira, na calada da noite e deixando-me um bilhete na mesa-de-cabeceira, com o coveiro da aldeia. Esfaquearam-me de lado no peito, na rua escura da taberna onde, numa propulsão de álcool, os amigos imaginários respondiam ao apelo. Estive para morrer e só me ocorria que, à custa da minha maldita mulher, não teria pelo menos uma cova feita pelo homem que ao retirar a terra fresca me enfeitava os cornos secos. Sozinho pasmei vários minutos aguardando que o corpo por fim se imobilizasse. Até que vozes trespassadas e distantes juntamente com o barulho difuso de uma ambulância me arranharam a consciência. Raciocinei, na medida do possível, que apenas uma morte ridícula seria uma singela justificação para a relatividade de uma vida equiparada a uma vindima sem cachos de uva. A minha morte seria ridícula o bastante. Na maior das contemplações principiei a rir a bom som. À medida que me enfiavam na ambulância, no preciso momento em que se preparavam para fechar a porta, através das minhas gargalhadas, reparei em dois homens no lado de fora observando-me. Um velho de cabelos brancos a fumar e um jovem de colete-de-forças mordendo na boca um frasco de vidro. Num sussurro rouco, o homem de cabelos brancos abordou-me:
- You are welcome...
- ...to Elsinore - gritei sem para de rir num estrondo de histeria.
O homem de cabelos brancos sorriu-me. De brilho nos olhos virou-se para o jovem de colete-de-forças e ordenou:
- Sá-Carneiro, larga o raio do frasco!
O jovem anuiu e o velho retirou-lhe da boca o frasco cor de caramelo, atirando-o para longe, ouvindo-se um estilhaço de cacos de vidro no alcatrão.
- Lá se foi a minha estricnina - lamentou o jovem de risco ao meio no cabelo, em tom tremido.
Contemplámo-nos os três - não me recordo de qualquer enfermeiro ou médico. Em olhos reveladores rebentámos numa erupção efusiva e estridente de risos convulsos.
Alguém fechou a porta. A ambulância agitou-se. Para lá dela irrompia a voz do jovem de colete-de-forças cantarolando:
" -Quando eu morrer batam em latas
Rompam aos berros e aos pinotes -
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa
E eu quero por força ir de burro..."
Não sei se cheguei a morrer. Ainda assim, continuo a vaguear em peregrinação, todas as noites, à taberna onde faço amigos. Quanto à minha mulher e ao coveiro - dizem as más-línguas -, mudaram-se para o norte e vivem muito felizes.
fs
- You are welcome...
- ...to Elsinore - gritei sem para de rir num estrondo de histeria.
O homem de cabelos brancos sorriu-me. De brilho nos olhos virou-se para o jovem de colete-de-forças e ordenou:
- Sá-Carneiro, larga o raio do frasco!
O jovem anuiu e o velho retirou-lhe da boca o frasco cor de caramelo, atirando-o para longe, ouvindo-se um estilhaço de cacos de vidro no alcatrão.
- Lá se foi a minha estricnina - lamentou o jovem de risco ao meio no cabelo, em tom tremido.
Contemplámo-nos os três - não me recordo de qualquer enfermeiro ou médico. Em olhos reveladores rebentámos numa erupção efusiva e estridente de risos convulsos.
Alguém fechou a porta. A ambulância agitou-se. Para lá dela irrompia a voz do jovem de colete-de-forças cantarolando:
" -Quando eu morrer batam em latas
Rompam aos berros e aos pinotes -
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa
E eu quero por força ir de burro..."
Não sei se cheguei a morrer. Ainda assim, continuo a vaguear em peregrinação, todas as noites, à taberna onde faço amigos. Quanto à minha mulher e ao coveiro - dizem as más-línguas -, mudaram-se para o norte e vivem muito felizes.
fs
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