A terceira pessoa
A verdade é que o nosso primeiro-ministro, mais do que qualquer outra coisa, tem muito azar: foi o caso da licenciatura, foi o caso Freeport, foi o caso Cova da Beira, foi o apartamento na rua Castilho, foram as "casas" na Covilhã, é agora o escândalo da sucata. Enfim, José Sócrates está enguiçado, tem maus amigos e maus filhos-de-tios, e a coisa só lá deve ir com bruxa, pois será mau olhado sem sombra de dúvida. Estou obviamente a brincar, mas a verdade é que destes casos o único que, creio, foi realmente óbvio, foi o da licenciatura, e aí parece que a questão era mais de princípios do que de polícia. Adiante. Como já disse anteriormente, não creio que o primeiro-ministro deva ser julgado sem provas, pois até ao momento o que há, ao que parece, é muito "diz-que-disse". O problema é o impacto de todos estes casos na opinião pública. E aqui Sócrates, o cidadão, é mais ou menos irrelevante, pois o homem é transitório: mais mandato, menos mandato, irá à sua vidinha. O que importa são as instituições, e essas, hoje, estão bem abaixo do nível médio das águas da credibilidade. Para o cidadão comum, o que o caso "face oculta", com este último e mal explicado desenvolvimento do pormenor das escutas, vem demonstrar por a+b é que quem está no topo não cai, nem sequer chega a tremer. Ficou a ideia de que as escutas foram anuladas não por não serem relevantes - não sei se eram - mas por nelas aparecer o primeiro-ministro. Ficou a ideia que o primeiro-ministro - seja ele qual for - é intocável. Este é que é o problema. No final, e após tantos e tantos "casos mediáticos", são as instituições do nosso estado que estão em causa. Ou deixarão de estar em causa, pois o cidadão passará, como se diz no Alentejo, "a cagar para isso". A desculpa é perfeita: "eles são uns gatunos, eles são todos iguais, neles ninguém toca". Eles, eles, eles. No fundo, a terceira pessoa refere-se a ninguém em concreto, mas ao país em si.
john
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