Sem título
Como os caros leitores já devem saber, eu sou incapaz de escrever um bom título. Exagero: talvez consiga escrever um bom título em cem tentativas miseravelmente falhadas. Lembro-me do meu melhor trabalho académico de sempre, manchado por um título infeliz, tão infeliz que na avaliação o meu professor perguntou "João, onde diabo tinhas tu a cabeça para escrever uma merda daquelas?" Ele tinha razão. É mais forte que eu - não sei escrever bons títulos.
Por outro lado, sou muito bom a escrever sinopses.
Mas este texto hoje é sobre títulos e não sobre sinopses, e como eu não os sei escrever como deve ser, vou falar dos títulos dos outros. Admito, enquanto projecto de escritor (que nunca sairá do projecto, pois fico-me sempre pelas sinopses), que invejo profundamente aquelas pessoas que em cinco segundos, como num truque de ilusionismo, criam um título fantástico. Um daqueles que soa sempre muito bem, que cativa à primeira, independentemente de quem o ler ou ouvir, ou da sua opinião acerca da história. Por experiência, diria que uma das coisas fundamentais à escrita de títulos é não ter medo do ridículo. Creio ser demasiado consciente, o que para todos os efeitos é mau: tento sempre criar um título que não soe ridículo, quando devia antes tentar criar um que soasse bem, que fosse cativante sem ser estúpido ou vulgar.
Um título pode ser óbvio, o que é sempre uma boa forma de safar o coiro. Exemplos (sem tradução). The Matrix é um título óbvio. Não tem brilho ou rasgo - cumpre a sua função, fica bem nos cartazes. O mesmo para Blade Runner. Estes são dois exemplos daquilo que um título deve ser: curto, e a referir-se directamente à história. Mas Blade Runner (o filme) é inspirado num livro de Philip K. Dick intitulado Do Androids Dream of Electric Sheep?, e este, sim, é um título fabuloso. Foge ao cânone: é longo, tem verbo, pergunta. Nem se refere ao livro, pois a narrativa não inclui qualquer pensamento neste sentido. Mas é um bom título porque fala da história de uma forma que nem ela fala de si mesma, se me faço entender. E resume muito bem uma das ideias principais do livro, através da questão: se os andróides foram capazes de ter consciência própria e sentimentos, serão humanos? [Será que também contam carneiros para adormecer?] Outro exemplo: We Own the Night. Nunca vi o filme, mas o título é inspirador. Ninguém "possui" a noite. Bem pelo contrário. A ideia, porém, é poética e desafiadora. Before the Devil Knows You're Dead (também não vi) - este é fabuloso na sua noção de urgência. O diabo sabe sempre quando morremos. The Catcher in the Rye - inevitável, eu sei - refere-se a um detalhe, a uma linha do delírio ininterrupto de Holden. Estes três últimos exemplos não seguem as "regras" e ignoram a história para a qual servem de título, mas têm em si poesia, e são, à sua maneira, inesquecíveis.*
Fica o melhor para o fim, e por "melhor" refiro-me ao melhor título que já encontrei, seja em livro ou em filme ou no que quer que seja: Where the Wild Things Are. É fabuloso. Não li o livro nem vi o filme (a considerar), lembro-me apenas do trailer, e por aí penso que o filme (e o livro) podia ter um título qualquer a puxar para o infantil. Mas tem este título, o melhor de todos os títulos. Não exagero: se eu tivesse escrito um conto intitulado Where the Wild Things Are podia desistir da escrita, pois não só saberia que nunca mais conseguiria escrever nada tão bom, como também saberia que aquele título seria a minha obra-prima. O título é absolutamente genial: tem beleza de forma - é agradável de ler e sobretudo de ouvir -, refere-se à história sem a denunciar. Podia falar directamente de monstros. Mas não: fala apenas das wild things, e remete-nos imediatamente para um outro mundo, onde essas "coisas selvagens" estão. Péssima explicação, eu sei - é o que se arranja a esta hora. Where the Wild Things Are. Fantástico.
john
*Porque não quero referir traduções: porque elas perdem os títulos. Comparem: Nós Controlamos a Noite, Antes que o Diabo Saiba que Morreste (ainda assim o menos mau), À Espera no Centeio, O Sítio das Coisas Selvagens. Não é necessário explicar nada, isto explica-se a si mesmo.
Por outro lado, sou muito bom a escrever sinopses.
Mas este texto hoje é sobre títulos e não sobre sinopses, e como eu não os sei escrever como deve ser, vou falar dos títulos dos outros. Admito, enquanto projecto de escritor (que nunca sairá do projecto, pois fico-me sempre pelas sinopses), que invejo profundamente aquelas pessoas que em cinco segundos, como num truque de ilusionismo, criam um título fantástico. Um daqueles que soa sempre muito bem, que cativa à primeira, independentemente de quem o ler ou ouvir, ou da sua opinião acerca da história. Por experiência, diria que uma das coisas fundamentais à escrita de títulos é não ter medo do ridículo. Creio ser demasiado consciente, o que para todos os efeitos é mau: tento sempre criar um título que não soe ridículo, quando devia antes tentar criar um que soasse bem, que fosse cativante sem ser estúpido ou vulgar.
Um título pode ser óbvio, o que é sempre uma boa forma de safar o coiro. Exemplos (sem tradução). The Matrix é um título óbvio. Não tem brilho ou rasgo - cumpre a sua função, fica bem nos cartazes. O mesmo para Blade Runner. Estes são dois exemplos daquilo que um título deve ser: curto, e a referir-se directamente à história. Mas Blade Runner (o filme) é inspirado num livro de Philip K. Dick intitulado Do Androids Dream of Electric Sheep?, e este, sim, é um título fabuloso. Foge ao cânone: é longo, tem verbo, pergunta. Nem se refere ao livro, pois a narrativa não inclui qualquer pensamento neste sentido. Mas é um bom título porque fala da história de uma forma que nem ela fala de si mesma, se me faço entender. E resume muito bem uma das ideias principais do livro, através da questão: se os andróides foram capazes de ter consciência própria e sentimentos, serão humanos? [Será que também contam carneiros para adormecer?] Outro exemplo: We Own the Night. Nunca vi o filme, mas o título é inspirador. Ninguém "possui" a noite. Bem pelo contrário. A ideia, porém, é poética e desafiadora. Before the Devil Knows You're Dead (também não vi) - este é fabuloso na sua noção de urgência. O diabo sabe sempre quando morremos. The Catcher in the Rye - inevitável, eu sei - refere-se a um detalhe, a uma linha do delírio ininterrupto de Holden. Estes três últimos exemplos não seguem as "regras" e ignoram a história para a qual servem de título, mas têm em si poesia, e são, à sua maneira, inesquecíveis.*
Fica o melhor para o fim, e por "melhor" refiro-me ao melhor título que já encontrei, seja em livro ou em filme ou no que quer que seja: Where the Wild Things Are. É fabuloso. Não li o livro nem vi o filme (a considerar), lembro-me apenas do trailer, e por aí penso que o filme (e o livro) podia ter um título qualquer a puxar para o infantil. Mas tem este título, o melhor de todos os títulos. Não exagero: se eu tivesse escrito um conto intitulado Where the Wild Things Are podia desistir da escrita, pois não só saberia que nunca mais conseguiria escrever nada tão bom, como também saberia que aquele título seria a minha obra-prima. O título é absolutamente genial: tem beleza de forma - é agradável de ler e sobretudo de ouvir -, refere-se à história sem a denunciar. Podia falar directamente de monstros. Mas não: fala apenas das wild things, e remete-nos imediatamente para um outro mundo, onde essas "coisas selvagens" estão. Péssima explicação, eu sei - é o que se arranja a esta hora. Where the Wild Things Are. Fantástico.
john
*Porque não quero referir traduções: porque elas perdem os títulos. Comparem: Nós Controlamos a Noite, Antes que o Diabo Saiba que Morreste (ainda assim o menos mau), À Espera no Centeio, O Sítio das Coisas Selvagens. Não é necessário explicar nada, isto explica-se a si mesmo.









0 Comments:
Post a Comment
<< Home