12.2.10

Matemática

Se há coisa que lamento é não ter jeito nenhum para a Matemática. É triste, mas é verdade: uma equação de segundo grau é suficiente para me dar um nó no cérebro que o inutiliza durante horas - uma espécie de EMP neuronal, ou algo que o valha. Uma de primeira já serve para desafio, mas com muita tentativa de raciocínio e duas folhas A4 com regras de três simples costumam ser suficientes para me fazer chegar a um resultado quase sempre certo. Mas é pena, muita pena mesmo que eu seja tão desastrado com a Matemática. Não só porque gosto de Matemática (santa ironia), mas também - e sobretudo - porque a minha inabilidade para os números me afastou de carreiras bem interessantes. Não falo de Medicina porque há momentos - não é sempre, atenção - em que sou estranhamente impressionável, sucedendo-se estes a outros momentos em que a visão de sangue, carne queimada ou algo que o valha simplesmente não me incomoda. Acho que não ia gostar de Arquitectura, apesar do Howard Roark; e, de resto, acho que o meu "talento para desenhar" terá porventura sido a terceira coisa mais sobrevalorizada de sempre em mim. Mas estudar Ciências teria sido sem dúvida interessante: eu sempre gostei de Ciências, e sou gajo para perder horas a ler sobre Geologia, Biologia (hoje em dia menos), Física (Física, vejam bem!) e sobretudo Astronomia. Gosto de ler sobre estes temas, e tenho cá para mim que poucas coisas me dariam tanto prazer actualmente como fazer jornalismo científico, coisa manifestamente impossível num país onde não existe jornalismo fora das áreas de política, economia e vida-de-pessoas-irrelevantes-a-quem-chamamos-de-jet-set. Lá está, falha a Matemática: tivesse eu ido para o primeiro agrupamento do Secundário, e ainda estava eu a passar tardes à conversa com o meu professor de Filosofia no bar da Escola Secundária de Odemira, entre dois cigarros, e isto quando não estava a tentar alcançar o estado de concentração e de disciplina mental necessário para entender o conceito de derivadas. Ou seja, a minha falta de jeito para os números fez-me passar ao lado de uma bela carreira científica.

Poder-me-ão dizer que ninguém em Portugal faz carreira científica, que não há investigação, que Astronomia ou Biologia era o caminho certo para o desemprego, entre outros lugares-comuns da praxe. Todos os que por um segundo pensem em dizer-me isto dêem uma olhadela ao mercado de trabalho de Jornalismo e depois contem-me como é (sem se rirem; eu sei que é difícil). Entrevistei, ainda durante a faculdade, um estudante de Astronomia, amigo de um amigo, que hoje dá aulas em Inglaterra, passa semanas no Chile e no Havai a olhar para o céu através dos mais sofisticados telescópios que temos, e está a concluir a tese de doutoramento. O ponto é precisamente este: um tipo com um bom curso na área das ciências, por mais irrelevante que essa área seja em Portugal, pode sempre ganhar coragem e ir para o estrangeiro, candidatar-se a bolsas de estudo, e mais dia menos dia está na Nasa, no CERN, ou noutro laboratório qualquer a injectar líquidos de cores esquisitas em ratinhos e a descobrir coisas interessantíssimas que, mais dia menos dia, um jornalista do Público mete na página do jornal com mais erros científicos do que a tese do criacionismo (há tempos disseram, a propósito do LHC, que o aparelho arrefecia a temperaturas inferiores ao zero absoluto, foi só rir). Mas ninguém no estrangeiro quer jornalistas - regra geral, já os têm em quantidade e qualidade suficientes. Para além de ser uma área terrivelmente limitada no que toca às línguas: se eu fosse astrónomo podia perfeitamente ir trabalhar para a Islândia, por exemplo - comunicava por equações ou por derivadas, e quando descobrisse um planeta com vida todos os meus colegas iriam compreender a importância da minha descoberta mesmo que eu expressasse as minhas emoções com um sonoro "foda-se, encontrei vida!". Isso não acontece no jornalismo, e se eu quiser ir viver para a Islândia, nunca poderei ser jornalista por lá, ainda que seja um país educado e que doze em cada dez islandeses falem inglês melhor do que eu falo português. Foi mesmo uma pena. Por exemplo, numa altura como esta, em que o nosso país, passe o eufemismo, cheira mesmo mal, eu poderia estar no Havai a ver o que se passa na constelação de Gémeos, ou, sei lá, podia estar na Antárctida a estudar os pinguins. Acho mesmo que os pinguins da Antárctida seriam uma excelente companhia neste momento, até porque não consta que debatam o sexo dos anjos em redor de uma coisa qualquer de capa de jornal.

john

2 Comments:

Blogger Pochinha said...

Bem, adorei ler. Adorei ler, concordo que as Ciências são sem dúvida muito interessantes e, certos dias de exames chatinhos à parte, não me arrependo de modo nenhum de ter escolhido o tal primeiro agrupamento. Adorei ler e, embora o quisesse transmitir, o que fiquei foi sem palavras que pudessem sequer comparar-se a estas. Portanto suponho que é isto. Peço desculpa por o comentário não ser mais interessante. =S

11:51 PM  
Blogger João Campos said...

Ora essa, todos os comentários são interessantes. Eu é que agradeço a atenção. Boas derivadas :)

12:01 PM  

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