A independência #5
João,
não sei se Mondrian produzia com subsídios estatais. De qualquer maneira: eu também acho que o criador deve estar "solto" para fazer o que bem entender, e para chamar arte ao que quiser. Considero é ser discutível que o criador o faça às custas dos outros. E aqui volto à questão do mecenato, ou da falta dele.
Se o Porto é uma região carente de cultura, o que é o Alentejo? Ou o Algarve? Eu digo-te: são um deserto. O Mário Lino tinha razão nisso, mais até do que aquilo que ele próprio sabia. Como é um deserto cultural o resto do interior do país - se Viseu é uma excepção, e eu espero que seja, isso é muito bom, e espero que continue a melhorar. Mas é precisamente por isso que eu creio que o modelo de financiamento deve ser mais descentralizado, para que as várias regiões possam definir as suas próprias políticas culturais, se queres colocar a questão nesses termos. Muito francamente: os burocratas de Lisboa nada sabem do que se passa em Beja, em Faro, em Évora, na Guarda, em Castelo Branco ou em Bragança.
E quando falamos de políticas culturais, há que ter a noção de que essas políticas têm necessariamente que abranger, sem distinção, um My Fair Lady ou um À Espera de Godot. Podes considerar que um My Fair Lady é "lixo-comercial" - se concordo ou não, é irrelevante -, mas esse lixo comercial tem uma audiência muito grande. Podes dizer que é por ignorância, mas isso não explica tudo. Acima de tudo, é por gosto. E tens uma fatia considerável da população que já não será educada de forma alguma para gostar de algo diferente. Por isso, essas "políticas culturais" de que falas têm de estar orientadas para o futuro, e de apostar nas gerações que aí vêem (boa sorte). Mas estou curioso: com que critério é que se define o que é cultura e o que não é? Subsidia-se uma peça de Beckett mas não um musical do La Féria? Porquê? É preferível que as pessoas vejam o musical, ou que não vejam coisa alguma? Isto até me lembra uma discussão antiga, dos tempos de universidade: será preferível as pessoas lerem "lixo", ou não lerem de todo? Não sei. O que sei é que eu não teria o direito de dizer às pessoas o que elas deveriam ler ou ver, ou o que elas devem considerar "arte".
Idealmente, sim, seria bom que a cultura conseguisse viver - não apenas sobreviver - sem depender única e exclusivamente da generosidade forçada de todos nós. Seria óptimo que houvesse mais mecenato, mais instituições privadas a fornecer apoios, etc. Não temos tradição disso. Se consideras fundamental educar o público, por que não tentar mudar também as mentalidades nesta esfera?
Mas voltando ao ponto inicial: se um "artista" trabalha à custa dos subsídios do Estado, não é independente. Como eu, se viver com os meus pais e às custas deles, não sou independente, por mais dinheiro que tenha na carteira ou independentemente das horas a que posso chegar a casa. Na música, por exemplo, as bandas ditas independentes são aquelas que não se promoveram com uma grande produtora, mas optam por produzir e editar os seus próprios álbuns - ou optam por pequenas editoras independentes e alternativas, que, tanto quanto sei, têm visto o seu negócio a subir consideravelmente, enquanto os "gigantes" definham todos os dias. Tens músicos a promoverem-se exclusivamente online - se bem que é verdade que a música permite isto de forma bastante simples até, ao contrário de outras formas de expressão artística. O cinema, por exemplo, também consegue encontrar aqui o seu nicho, e posso dar-te óptimos exemplos de produções verdadeiramente independentes disponíveis no YouTube.
john
E por acaso até podes questionar o financiamento dos sistemas de ensino, sim. Isso ficará para outro dia.
não sei se Mondrian produzia com subsídios estatais. De qualquer maneira: eu também acho que o criador deve estar "solto" para fazer o que bem entender, e para chamar arte ao que quiser. Considero é ser discutível que o criador o faça às custas dos outros. E aqui volto à questão do mecenato, ou da falta dele.
Se o Porto é uma região carente de cultura, o que é o Alentejo? Ou o Algarve? Eu digo-te: são um deserto. O Mário Lino tinha razão nisso, mais até do que aquilo que ele próprio sabia. Como é um deserto cultural o resto do interior do país - se Viseu é uma excepção, e eu espero que seja, isso é muito bom, e espero que continue a melhorar. Mas é precisamente por isso que eu creio que o modelo de financiamento deve ser mais descentralizado, para que as várias regiões possam definir as suas próprias políticas culturais, se queres colocar a questão nesses termos. Muito francamente: os burocratas de Lisboa nada sabem do que se passa em Beja, em Faro, em Évora, na Guarda, em Castelo Branco ou em Bragança.
E quando falamos de políticas culturais, há que ter a noção de que essas políticas têm necessariamente que abranger, sem distinção, um My Fair Lady ou um À Espera de Godot. Podes considerar que um My Fair Lady é "lixo-comercial" - se concordo ou não, é irrelevante -, mas esse lixo comercial tem uma audiência muito grande. Podes dizer que é por ignorância, mas isso não explica tudo. Acima de tudo, é por gosto. E tens uma fatia considerável da população que já não será educada de forma alguma para gostar de algo diferente. Por isso, essas "políticas culturais" de que falas têm de estar orientadas para o futuro, e de apostar nas gerações que aí vêem (boa sorte). Mas estou curioso: com que critério é que se define o que é cultura e o que não é? Subsidia-se uma peça de Beckett mas não um musical do La Féria? Porquê? É preferível que as pessoas vejam o musical, ou que não vejam coisa alguma? Isto até me lembra uma discussão antiga, dos tempos de universidade: será preferível as pessoas lerem "lixo", ou não lerem de todo? Não sei. O que sei é que eu não teria o direito de dizer às pessoas o que elas deveriam ler ou ver, ou o que elas devem considerar "arte".
Idealmente, sim, seria bom que a cultura conseguisse viver - não apenas sobreviver - sem depender única e exclusivamente da generosidade forçada de todos nós. Seria óptimo que houvesse mais mecenato, mais instituições privadas a fornecer apoios, etc. Não temos tradição disso. Se consideras fundamental educar o público, por que não tentar mudar também as mentalidades nesta esfera?
Mas voltando ao ponto inicial: se um "artista" trabalha à custa dos subsídios do Estado, não é independente. Como eu, se viver com os meus pais e às custas deles, não sou independente, por mais dinheiro que tenha na carteira ou independentemente das horas a que posso chegar a casa. Na música, por exemplo, as bandas ditas independentes são aquelas que não se promoveram com uma grande produtora, mas optam por produzir e editar os seus próprios álbuns - ou optam por pequenas editoras independentes e alternativas, que, tanto quanto sei, têm visto o seu negócio a subir consideravelmente, enquanto os "gigantes" definham todos os dias. Tens músicos a promoverem-se exclusivamente online - se bem que é verdade que a música permite isto de forma bastante simples até, ao contrário de outras formas de expressão artística. O cinema, por exemplo, também consegue encontrar aqui o seu nicho, e posso dar-te óptimos exemplos de produções verdadeiramente independentes disponíveis no YouTube.
john
E por acaso até podes questionar o financiamento dos sistemas de ensino, sim. Isso ficará para outro dia.









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